terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A Auto - Declaração Feminista e a Não - Posição Feminista

Ao começar este texto já aviso que não abordará só esse fator de não se posicionar só em relação ao feminismo, mas sim em outros movimentos sociais. O texto falará de questões que não são usadas na prática como: empatia, atitude, discernimento, posição política.
Sempre acreditei que quando vamos demonstrar nossa opinião sobre determinado assunto é preciso que tenhamos embasamento e que principalmente, ao nos posicionarmos de maneira teórica sabermos que quando o momento pedir também vamos nos posicionar de maneira prática. Isso é o que menos tem acontecido. Percebo que no movimento feminista, há várias divisões – o que é mais que normal, visto que o feminismo não é um grupo de mulheres com as mesmas vivencias – mas essas divisões começam pelo seguinte: qualquer mulher que faça parte de um grupo social não – privilegiado tem mais empatia pelas situações opressoras que outras mulheres passam, do que uma mulher privilegiada que comenta muito sobre feminismo, mas não sabe tomar posição quando se depara com situações de violência.
Por exemplo, como mulher lésbica eu além de entender muito bem o que outra lésbica passa ao estar em situações de lesbofobia, eu consigo ajuda-la de maneira prática, ao contrário do que outras mulheres não – lésbicas fazem. A posição de empatia e ajuda as mulheres deveria ser uma posição prática de todas as feministas, e não momentos raros. É muito comum nos depararmos com feministas dizendo que apoiam tal tipo de luta, mas pouco se ve elas tomando atitudes para ajudar na visibilidade daquele grupo social.
A auto declaração feminista começa quando compartilhamos muitas postagens no facebook sobre misoginia e feminismo, começa quando escrevemos muitas coisas sobre feminismo no twiter, começa quando escrevemos muitos textos acerca do movimento feminista e a não posição feminista começa quando escolhemos a neutralidade nas situações de violência misógina e racistas.
O meu amigo, ele pode ser o mais racista possível, mas eu jamais abrirei mão da minha amizade com ele, porque o ser humano erra, e está em constante crescimento (ou seria desconstrução). Essa frase é usada por muitas mulheres dentro do feminismo, mas são as mulheres que tem privilégio de base e por isso não precisam se preocupar com isso, até porque a violência não atinge diretamente a elas. Resumem opressão estrutural com pequenos deslizes, e assim vamos vendo dezenas de feministas auto declaradas, relevando as pequenas opiniões  de homens misóginos e racistas, porque o ser humano está em constante crescimento. Enquanto isso, mulheres continuam apanhando e morrendo pelos mesmos.
Não vamos tão longe: sabemos que a socialização das mulheres é para serem treinadas a ser delicadas e amáveis e principalmente mãe de todos. Precisam ser compreensivas e amorosas. O que me deixa curiosa é até que ponto isso se torna compreensivo se é as custas de mulheres exploradas,  em que essas mesmas feministas sentam na mesa do bar pra tomar uma cerveja com o abusador e fetichizador de mulheres.
É difícil, mas muito mais corriqueiro mulheres que passam por essas violências precisarem cortar relações com pessoas desse tipo, pois sofrem isso cotidianamente ao ponto de não poder mais aguentar. Muitas não conseguem cortar relações, pois estão presas a uma trama em que envolve trabalho, escola ou universidade, e tem medo de serem humilhadas e debochadas porque tomaram atitudes ‘’ radicais’’, e quando vejo mulheres que tem medo de olhar além da bolha que foram socializadas desde pequenas, eu sinto uma mistura de pena e de curiosidade.
A partir do momento que falamos questões políticas e damos apoio a elas, não adianta falar e depois subir em cima do muro sem mostrar defesa: nosso papel como feministas é cortar relação  com quem nos violenta ou violenta outras mulheres, seja com quem for, primeiro por nós mesmas, segundo pelas outras mulheres. Eu percebo a mesma coisa com várias demandas dos movimentos sociais, como por exemplo racismo: muitas mulheres feministas brancas sabem que o fulano é racista pois deixou explicito em opiniões sobre cotas raciais, sobre apropriação cultural e até mesmo na hora de roubo de protagonismo negro, mas elas mantém esses homens nos círculos de amizade sejam virtuais ou pessoais, porque são pequenos deslizes. Para muitas mulheres feministas brancas, o racismo só é racismo quando é um discurso de ódio direto, até o momento que naõ tomar proporções muito grandes ( claro no medidor de quem nunca sofreu na pele racismo) o homem branco pode sempre ‘’desconstruir’’.
Como mulher lésbica percebo a empatia maior entre eu e meu grupo social não só pensando na lesbianidade, mas sim em vários outros meios: mulheres lésbicas não dependem de homem pra nada, e inclusive desenvolvem laços com mulheres muito mais puros, pois a indiferença perante aos homens é muito real. Por vezes percebo que ainda assim dentro do meu grupo social, nem todas são assim, mas ao mesmo tempo penso que não adianta esperar posição firme de quem não tem a mesma realidade que várias mulheres em situações de opressão pelo recorte de raça e classe.  É perceptível que feministas heterossexuais/bissexuais brancas por não conseguem manter uma relação empática com mulheres sem querer educar algum homem no meio.

Ademais, falta no feminismo uma posição política de fato, falta conciliar as falas ( e muitas vezes poucas, pois muitos discursos são suaves para não chocar ou agredir algum macho) com as atitudes propostas. Falta cortar relações com homens brancos fetichistas e lesbofóbicos, falta a coesão na hora de defender uma pauta em meio virtual, mas pessoalmente rir da piada misógina ou preferir não falar nada enquanto um homem fetichiza e objetifica mulheres lesbicas e negras. A auto declaração feminista é fácil, o difícil é ter posição política na hora de precisar defender e proteger mulheres. 



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