terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A Auto - Declaração Feminista e a Não - Posição Feminista

Ao começar este texto já aviso que não abordará só esse fator de não se posicionar só em relação ao feminismo, mas sim em outros movimentos sociais. O texto falará de questões que não são usadas na prática como: empatia, atitude, discernimento, posição política.
Sempre acreditei que quando vamos demonstrar nossa opinião sobre determinado assunto é preciso que tenhamos embasamento e que principalmente, ao nos posicionarmos de maneira teórica sabermos que quando o momento pedir também vamos nos posicionar de maneira prática. Isso é o que menos tem acontecido. Percebo que no movimento feminista, há várias divisões – o que é mais que normal, visto que o feminismo não é um grupo de mulheres com as mesmas vivencias – mas essas divisões começam pelo seguinte: qualquer mulher que faça parte de um grupo social não – privilegiado tem mais empatia pelas situações opressoras que outras mulheres passam, do que uma mulher privilegiada que comenta muito sobre feminismo, mas não sabe tomar posição quando se depara com situações de violência.
Por exemplo, como mulher lésbica eu além de entender muito bem o que outra lésbica passa ao estar em situações de lesbofobia, eu consigo ajuda-la de maneira prática, ao contrário do que outras mulheres não – lésbicas fazem. A posição de empatia e ajuda as mulheres deveria ser uma posição prática de todas as feministas, e não momentos raros. É muito comum nos depararmos com feministas dizendo que apoiam tal tipo de luta, mas pouco se ve elas tomando atitudes para ajudar na visibilidade daquele grupo social.
A auto declaração feminista começa quando compartilhamos muitas postagens no facebook sobre misoginia e feminismo, começa quando escrevemos muitas coisas sobre feminismo no twiter, começa quando escrevemos muitos textos acerca do movimento feminista e a não posição feminista começa quando escolhemos a neutralidade nas situações de violência misógina e racistas.
O meu amigo, ele pode ser o mais racista possível, mas eu jamais abrirei mão da minha amizade com ele, porque o ser humano erra, e está em constante crescimento (ou seria desconstrução). Essa frase é usada por muitas mulheres dentro do feminismo, mas são as mulheres que tem privilégio de base e por isso não precisam se preocupar com isso, até porque a violência não atinge diretamente a elas. Resumem opressão estrutural com pequenos deslizes, e assim vamos vendo dezenas de feministas auto declaradas, relevando as pequenas opiniões  de homens misóginos e racistas, porque o ser humano está em constante crescimento. Enquanto isso, mulheres continuam apanhando e morrendo pelos mesmos.
Não vamos tão longe: sabemos que a socialização das mulheres é para serem treinadas a ser delicadas e amáveis e principalmente mãe de todos. Precisam ser compreensivas e amorosas. O que me deixa curiosa é até que ponto isso se torna compreensivo se é as custas de mulheres exploradas,  em que essas mesmas feministas sentam na mesa do bar pra tomar uma cerveja com o abusador e fetichizador de mulheres.
É difícil, mas muito mais corriqueiro mulheres que passam por essas violências precisarem cortar relações com pessoas desse tipo, pois sofrem isso cotidianamente ao ponto de não poder mais aguentar. Muitas não conseguem cortar relações, pois estão presas a uma trama em que envolve trabalho, escola ou universidade, e tem medo de serem humilhadas e debochadas porque tomaram atitudes ‘’ radicais’’, e quando vejo mulheres que tem medo de olhar além da bolha que foram socializadas desde pequenas, eu sinto uma mistura de pena e de curiosidade.
A partir do momento que falamos questões políticas e damos apoio a elas, não adianta falar e depois subir em cima do muro sem mostrar defesa: nosso papel como feministas é cortar relação  com quem nos violenta ou violenta outras mulheres, seja com quem for, primeiro por nós mesmas, segundo pelas outras mulheres. Eu percebo a mesma coisa com várias demandas dos movimentos sociais, como por exemplo racismo: muitas mulheres feministas brancas sabem que o fulano é racista pois deixou explicito em opiniões sobre cotas raciais, sobre apropriação cultural e até mesmo na hora de roubo de protagonismo negro, mas elas mantém esses homens nos círculos de amizade sejam virtuais ou pessoais, porque são pequenos deslizes. Para muitas mulheres feministas brancas, o racismo só é racismo quando é um discurso de ódio direto, até o momento que naõ tomar proporções muito grandes ( claro no medidor de quem nunca sofreu na pele racismo) o homem branco pode sempre ‘’desconstruir’’.
Como mulher lésbica percebo a empatia maior entre eu e meu grupo social não só pensando na lesbianidade, mas sim em vários outros meios: mulheres lésbicas não dependem de homem pra nada, e inclusive desenvolvem laços com mulheres muito mais puros, pois a indiferença perante aos homens é muito real. Por vezes percebo que ainda assim dentro do meu grupo social, nem todas são assim, mas ao mesmo tempo penso que não adianta esperar posição firme de quem não tem a mesma realidade que várias mulheres em situações de opressão pelo recorte de raça e classe.  É perceptível que feministas heterossexuais/bissexuais brancas por não conseguem manter uma relação empática com mulheres sem querer educar algum homem no meio.

Ademais, falta no feminismo uma posição política de fato, falta conciliar as falas ( e muitas vezes poucas, pois muitos discursos são suaves para não chocar ou agredir algum macho) com as atitudes propostas. Falta cortar relações com homens brancos fetichistas e lesbofóbicos, falta a coesão na hora de defender uma pauta em meio virtual, mas pessoalmente rir da piada misógina ou preferir não falar nada enquanto um homem fetichiza e objetifica mulheres lesbicas e negras. A auto declaração feminista é fácil, o difícil é ter posição política na hora de precisar defender e proteger mulheres. 



quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Lésbicas e Vagina: Uma relação Imutável

Percebo que as pessoas não sabem mais a diferença entre sexualidade e gênero, o que chega a ser um tanto curioso, porque o gênero é amplamente defendido como algo revolucionário e que pode ser performado de várias formas, e a sexualidade é defendida do mesmo modo, só que não é assim que na prática ocorre.
Vamos lá:
O que é sexualidade? Eu não vou entrar em conceitos teóricos e nem trazer frases de autoras para definição dessa palavra, mas vou usar do meu entendimento do que é sexualidade, que é o mesmo entendimento que vocês: sexualidade é com quem e como nos relacionamos, seja fisicamente e emocionalmente. A sexualidade define com quem nos relacionamentos, com quem temos atração sexual e emocional. Por exemplo: Mulheres Lésbicas se atraem por mulheres. Bissexuais se atraem e se relacionam com mulheres ou homens. Heterossexuais se relacionam com pessoas do sexo oposto. Sim, a sexualidade é ligada ao sexo. É ligada a nossa biologia, sinto informar pra vocês. Por mais que se queira transformar a sexualidade em algo parecido com o gênero, ou seja, um sentimento, isso não vai ser possível, porque sexualidade é e sempre foi com quem nos relacionamos.
Uma mulher heterossexual não pode se sentir lésbica, não pode desconstruir o fato dela ser hetero. Isso não vai acontecer, porque essa é a orientação sexual dela. Se ela se relacionar com mulheres sexualmente, aquilo não vai significar e nem gerar prazer pra ela, porque a orientação sexual dela é heterossexual, ou seja, ela só se relaciona com o sexo oposto, ou seja, homens. Não há como desconstruir esse tipo de pensamento, se uma mulher heterossexual começa a beijar mulheres vez ou outra em festas por exemplo, para provar que é uma pessoa desconstruída, das duas uma:
- Ou ela vai ferir os sentimentos de uma mulher lésbica ou bissexual, em algum momento;
- Ou ela vai se ferir, querer provar algo que ela não é.
A sexualidade é intrinsecamente ligada ao sexual. Aos órgãos genitais, pra ser mais precisa. Não interpretem isso como se eu estivesse dizendo que todos nós somos seres alucinados por sexo, e que somos pênis ou vaginas ambulantes, claro que não. O emocional, o sentimento mais aprofundado, acontece quando conhecemos alguém mais intensamente e cotidianamente e isso é muito óbvio. O que estou colocando, é que nenhuma mulher heterossexual vai se apaixonar por uma mulher, e mesmo que aja um sentimento entre ambas, uma delas não vai conseguir levar aquele relacionamento adiante. Quando mulheres bissexuais e heterossexuais brincam que: ‘’ Só me decepciono com homens, vou virar lésbica’’, isso é altamente lesbofóbico, é não levar em consideração a vivência de mulheres lésbicas, ninguém pode migrar de sexualidade, as pessoas no máximo podem  passar anos se enganando por opressão e heterossexualidade compulsória e depois se entenderem sua verdadeira  sexualidade, mas ninguém muda de sexualidade por concepção momentânea. Reflitam vocês mesmas, se vocês mudariam a sexualidade de vocês e se pedissem pra vocês desconstruírem o desejo e sexualidade de vocês, o que vocês fariam? Fingiriam ser algo que não são? Ignorariam o que vocês querem? Machucariam outras pessoas em prol de uma desconstrução sem sentido? Os homens gays que vocês conhecem se relacionariam sexual e emocionalmente romanticamente com homens transexuais com vagina? Vocês, lésbicas que se alinham a um pensamento queer, se relacionariam sexualmente com mulheres transexuais com pênis?
Todos nós sabemos as respostas. Intimamente e exteriormente. E quando falamos não para todas essas respostas, não estamos invalidando a identidade de gênero de qualquer pessoa independente da concepção de gênero que cada um tem: afirmar que uma mulher lésbica se relaciona única e só com mulheres que tem vagina, não deveria ser transfobico, porque  não é algo mutável nem tem a ver com algum problema relacionado a identidade de gênero de alguém. Tem a ver com quem somos.
Falando diretamente sobre mulheres lésbicas, toda a lesbofobia que passamos é porque exatamente negamos pênis aos nossos corpos. Porque para a nossa sociedade, a cura pra qualquer mal é pênis. Porque para se casar, ter filhos, ter um casa, família,  tem que ter um homem incluso nisso. O verdadeiro sexo é o sexo que há pênis. O sexo entre mulheres não existe para as concepções lesbofobicas. E por mais que vocês afirmem: ‘’Mas nem todo homem teu pau, e nem toda mulher tem buceta’’, é exatamente ao contrário que a sociedade faz a leitura, e a sociedade persiste em fazer uma leitura de estupro corretivo. Questionar porque lésbicas não se relacionam com pessoas com pênis, é estupro corretivo, porque nossa sexualidade é resistência. Resistir a uma sociedade que nos empurra isso todos os dias da nossa vida. Se vocês levarem em consideração nossas vivências, vão saber que muitas mulheres lésbicas passam anos casadas com homens tentando reprimir que são lésbicas por baixo auto estima e não aceitação da família. Vocês iriam entender que muitas mulheres lésbicas quando adolescentes foram e são empurradas para homens para ver se curam a lesbiandade. Vocês iriam saber que todos os dias uma mulher lésbica é estuprada pra aprender a gostar de homem. Vocês iriam saber que há lésbicas anônimas, lésbicas que vocês nunca ouviram falar, mas que são espancadas pela polícia porque estavam beijando uma mulher numa esquina. Vocês iriam saber que o estupro corretivo é real, quando enfiam pênis na boca de mulheres lésbicas bêbadas. Vocês iriam saber que o corretivo quer dizer que querem nos corrigir, nos curar. E pra nos curar, é preciso que enfiem pênis nos nossos corpos. Pra nos curar é preciso fazer pornografia em que homens estão no meio da transa de duas mulheres, pra nos curar o nome lésbica passa a ser inexistente nos movimentos sociais. Pra nos curar mulheres lésbicas estão sendo expulsas de casa. Pra nos curar, lésbicas butchs estão sendo chamadas de homens e de ‘’masculinizadas’’ e acusadas de querer ser homens, porque a sociedade não nos vê simplesmente como lésbicas que amam  outras mulheres.
As definições de gênero de vocês, isso eu não posso fazer nada. Mas peço, com coerência, não peçam para lésbicas desconstruírem aversão a pênis. O nosso nojo a esse órgão sexual é justificado, porque o patriarcado, misoginia e a lesbofobia, são empurrados pra gente a vida toda em forma de pênis. Por mais que vocês queiram ver gênero como sentimento, sexualidade não é, e nem nunca foi assim, e as violências que as lésbicas sofrem estão ligadas a questão do órgão sexual de homens. Se trata de quem vocês se relacionam. Sempre foi assim, e antes de vocês pensarem em desconstrução de algo tão absurdo que é a sexualidade e o modo que as pessoas se relacionam em relação a isso umas com as outras, pensem se vocês vão praticar o que tanto teorizam, porque a prática, a prática é muito diferente. Na prática quem morre e é espancada é quem se relaciona com alguém do mesmo sexo. Não o contrário.
Essa semana houve acusações de transfobia sobre essa imagem:
Parece que  as lésbicas não podem mais se libertar. E que qualquer menção que gostamos de buceta é algo ofensivo. A brincadeira acima nem poderia acontecer na vida real, porque se uma mulher lésbica que não se assumiu fazer isso em família, as vezes é expulsa ou espancada porque diz que gosta de mulheres, consequentemente bocetas. É esperado nos ambientes familiares que se faça piadas sobre pênis, sobre homens, e quem nem se toque no nome ‘’buceta’’. Tanto que na nossa linguagem popular, falar buceta é mais pesado e um grande palavrão, ao que falar ‘’caralho’’ é mais tranquilo. Imagina então se uma mulher se levanta e disser que gosta de mulheres?
Em nenhum momento o tweet acima diz que mulheres transexuais não são mulheres. Mas o tweet afirma sim, que mulher lésbica gosta de buceta, e isso é a definição do ser lésbica. E gostar de boceta sendo uma mulher, é algo transcendente, é uma heresia. E mulheres lésbicas sempre gostaram de mulheres com boceta. Não há nada que vocês possam fazer sobre isso, e isso não é se colocar intencionalmente contra qualquer pessoa que queira se identificar fora do sexo que nasceu, na verdade isso nada tem a ver com gênero, como mencionei no começo do texto: isso tem a ver com sexualidade.
Que possamos olhar para além do nosso mundo e das nossas vivências, mas dando aquela espiada: será que a gente faria o que tanto pregamos?
Deixo vocês com um trecho da Adrienne Rich:
‘’ Antes que qualquer tipo de movimento feminista existisse ou pudesse existir, as lésbicas existiam: mulheres que amavam mulheres, que se recusavam a acatar o comportamento imposto as mulheres, que se recusavam a serem definidas em função dos homens. Aquelas mulheres, nossas antepassadas, milhões cujos nomes nós não sabemos, foram torturadas e queimadas como bruxas, difamadas em tratados religiosos e posteriormente científicos, retratadas na arte e literatura como mulheres bizarras, amorais, destrutivas e decadentes. Por um longo tempo as lésbicas foram a personificação do mal feminino.  Lésbicas têm sido forçadas a viver entre duas culturas, ambas dominadas por homens, cada uma delas negando e ameaçando nossa existência. A cultura patriarcal heterossexual levou as lésbicas a culpa e as sombras, frequentemente ao ódio a si mesmas e ao suicídio’’.

Eu, nós. Lésbica

Escrevo esse texto, no intuito de resgatar uma das coisas mais importantes que aconteceram em 2015: que foi a descoberta do meu eu, do meu verdadeiro eu… Lésbica. Trago em minha cabeça memorias que não são tão antigas, mas mesmo assim preenchem minha mente com imagens desbotadas, até mesmo enfraquecidas. Para me entender lésbica, demorou muito. E eu nem sei se alguma vez chegaria nessa conclusão. A primeira vez que beijei uma mulher, foi a uns 4 anos atrás. Foi uma traição. Sim, de fato foi. Na época eu namorava com um homem, e antes de namorar ele, eu já começava a me apaixonar por essa menina. Mas por questões de heterossexualidade compulsória, eu engajei em um compromisso com ele. Foi quase 2 anos de relacionamento abusivo, e de negar e deixar de refletir o que estava bem em minha frente. A aversão ao órgão sexual masculino, a vontade de vomitar, a indiferença perante ao sexo, a baixa auto estima, a auto destruição. Tudo era uma soma e era muito explicito que eu estava naquele relacionamento por dependência emocional. Após o termino desse namoro, eu fiz o que sempre quis fazer: dediquei meus beijos e carinhos só pra mulheres.
Segui me denominando bissexual, mesmo depois de muito tempo sem me relacionar com homens. Eu fazia isso para ter uma melhor aceitação não só minha mas da família. Eu não quero com isso dizer que minha lesbianidade se construiu após a ruptura de um macho, mas sim de buscar evidenciar o quanto fui compulsiva em relação a homens, desde meus 11 anos. Nunca se abriu a possibilidade de gostar de mulheres pra mim, porque eu estava ocupada sendo sexualizada. Esse ano, esse ano finalmente me libertei de me denominar bissexual pra finalmente entender quem eu sou. Eu compreendi rápido, porque não era algo novo para mim, mas eu procurei conversar com outras amigas lésbicas, e principalmente repassar todo meu passado. Lembrar de todas as vezes que me forcei a fazer coisas que não queria fazer, sobre o consentimento falso, sobre meus falsos sentimentos, sobre todas as vivencias complicadas que tive.
Quando me construo observando como me relaciono, mais eu vou percebendo todas as barreiras propostas. O quanto o meu eu é a todo momento questionado. O quanto a minha insegurança se destaca, porque a todo momento, a sociedade patriarcal e heterocentrada me diz que não sou boa o suficiente. Que a mulher que amo vai me deixar. Que o homem sempre sabe fazer melhor. Que falta alguma coisa. Falta alguma coisa no meu amor, e no meu carinho. No sexo, falta um pênis. Nas ruas, eu não posso demonstrar meu sentimento. A todo o momento sou bombardeada de forma velada e explicita. A não pergunta me causa desconforto e tristeza. Ninguém pergunta sobre minha namorada. Ninguém pergunta sobre meu namoro. Todos fingem que eu só tenho uma amiga muito próxima. Pouco importa nossos momentos de reciprocidade e sentimento, que vão além de uma amizade. Todo mundo pergunta sobre o namoro hetero de qualquer mulher da minha família. Vamos todos fingir que ela não é lésbica. Nem vamos tocar nesse nome. A não importância me causa dores, dores emocionais.
Sabendo a todo o momento que não sou eu que faço comparações com homens, mas sim a sociedade que tem aversão e não acredita no amor entre duas mulheres, que faz esse parâmetro, a todo momento sou colocada a prova. Por mim mesma, por consequência do que a sociedade me sufoca. Ninguém respeita nossos relacionamentos. Ou somos convidadas para fazer parte de uma transa em grupo, um ménage talvez, ou somos condicionadas a assistir o quanto as pessoas não identificam nosso relacionamento como um relacionamento real, principalmente se for monogâmico. Não somos reais, nosso namoro é uma brincadeira. Amanhã passa. Fase. Coisa de momento. Estamos livres e disponíveis pra receber cantada, trocar conversas flertivas, porque afinal, ela não está namorando né? Quem somos nós? Seres inexistentes?
E porque você cortou o cabelo assim?
E até onde você vai com isso?
Seja discreta.
Não se exiba. Peço isso porque me preocupo.
Mentira.
Verdades?
Abominação, doença?
Todos querem que ninguém saiba. O nosso amor a gente esconde. Faz um toque suave na mão, mas sem dar muita bandeira. Porque essas coisas se fazem entre quatro paredes, não? Ou só pra eles assistirem? Não sei.
Butch? Porque você está se vestindo como homem? Quer ser homem? E porque você namora uma mulher que quer ser homem?
Porque você sente tanta insegurança? Não confia em si mesma? Não confia na sua companheira? Eu confio. Confio mais que tudo. Mas quando estamos longe, e quando ela está em uma festa, tudo que eu consigo pensar, é o quanto os homens estarão ali, sem respeitar, sem respeita-la individualmente, e sem respeitar um relacionamento. Quando olho os homens gerando conversas, querendo respostas, ou se metendo no abraço de duas namoradas como já testemunhei, eu não sei o que pensar, além da nossa vulnerabilidade.
Nosso sentimento é único para mulheres, e temos receios. A todo o momento somos questionadas e colocadas em uma competição, ou então comparadas. Se ambas somos lésbicas, encaramos o fetiche e a misoginia dos homens querendo a todo momento quebrar nossa relação de forma psicológica e física, além de sermos sempre fetichizadas. Se namorarmos uma mulher bissexual, precisamos de base e segurança, porque  o fato da nossa companheira também gostar de homens, nos apavora, de uma maneira que não nos colocamos como inferiores, mas sim de que o nosso maior inimigo tenta se infiltrar de diversas maneiras diferentes, e todas as nossas vivencias vem a tona.
Nossas explicações, de que amamos, de que confiamos. Mas não podemos confiar em qualquer palavra amiga, porque sabemos que amanha ou depois, quem vai segurar a nossa barra somos nós mesmas. A nossa dor é a gente quem vai cuidar. De todas as maneiras procuro a tranquilidade, e sei que encontro no amor que sinto pelas mulheres. A nossa forma de ver o mundo, pra quem focamos esses sentimentos… Esse ano me deparei com tudo isso e ainda mais, e sei que tenho uma passibilidade muito grande perto do que as sapatonas de anos já passaram, ou da situação familiar que algumas se encontram. Porém, eu hoje queria agradecer a todas vocês por resistirem. E a frase que me fez presente for:
‘’ E SE EU FOR LÉSBICA?’’
E eu digo
Eu sou.
Eu, nós.
Lésbicas.

Cena da série Orange Is The New Black, personagem Big Boo. 
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Reflexões sobre ‘‘ n-b’‘ e diversidade

Há muito venho pensando em escrever alguma coisa sobre identidade de gênero, teoria queer, gênero ‘’não binário’’, sexualidade  e movimento LGBT, em forma de crítica. No entanto, no que concerne a teoria queer eu não posso me estender muito, pois eu nunca consegui ler ela ao todo, mas vou deixar nas referências bibliográficas alguns textos dos quais eu me baseei. Sobre a questão das políticas identidárias  ainda não quero me aprofundar sobre isso, estou acumulando mais informações e reflexões embora a minha concepção e a minha opinião já esteja formada, mas isso é assunto futuramente.

Notei que em meu blog fui seguida por algumas pessoas que se identificam com a teoria queer e com a expansão de gêneros, quero deixar bastante escurecido, que eu não compactuo com isso. Embora eu tenha postado uma etnografia que eu fiz esse mês para a disciplina de antropologia em meu curso, isso não quer dizer que eu compartilhe opiniões de concordância. A pesquisa em si deve ser feita sem interferência de opiniões, e a minha decisão de colocar aqui o texto, foi para ajudar na visibilidade da assexualidade, pois sei que é de extrema importância que materiais do tipo sejam divulgados, visto que aqui no Brasil não se tem uma militância física de fato a respeito dessas questões. 

Parto da seguinte questão, sobre o ‘’gênero não binário’’.
Curiosamente, essa semana houve uma apresentação etnográfica sobre essa pauta, e ela só ajudou a confirmar o meu posicionamento a respeito disso: de que isso é identificação de pessoas brancas, privilegiadas que leem textos traduzidos sobre a teoria queer, e que querem a todo custo, trazer isso para o Brasil. Para mim, todas as pessoas tem disforia, podem ter disforia, não se adequar ao sexo que nasceu e muito menos se ‘’identificar’’ com o outro sexo, portanto, se ver como uma pessoa neutra.  Aliás, qualquer pessoa tem esse direito, porque como foi afirmada por algumas pessoas ‘’não binárias’’ a identificação deles é independente de como a sociedade vai ler eles materialmente, e também é unicamente pelo direito de eles serem como querem ser.
Até aí, concordo. E sei que muita coisa não é questão de escolha, é um sentimento. Mas, afirmar que existe ‘’ageneridade’’ é ignorar anos e anos de opressão a classe das mulheres. O gênero em si, é uma casta, é uma nomenclatura material dada pelo patriarcado para separar aquelas que vão ser exploradas, dos exploradores. O gênero feminino vai ser a subordinada, a objetificada, a fetichizada, a explorada. O gênero masculino vai ser o ‘’superior’’, o que domina as instituições de poder, além de ter a socialização masculina, que cabe lembrar, contém o machismo incluso nele. 
Essas duas classes, refletem uma desigualdade e uma subordinação forte durante dezenas de anos. Se a sociedade colocou um ‘’binarismo de gênero’’, não foi para benefício de ambos os ‘’gêneros’’ e sim como um meio de dominar e submeter um gênero específico, e esse gênero é o feminino, o qual a classe de mulheres faz parte.  Criadas para servir, criadas para submissão, criadas para não questionar. Criadas para serem vendidas, para serem mutiladas, criadas para serem criadas, criadas pra serem escravizadas, criadas para se odiarem. Criadas a base de misoginia. É isso que engloba o gênero feminino. Até porque como mencionei, o gênero é um mal em absoluto, ele não beneficia ninguém. Mas acaba que quem sai estuprada e violentada, é as mulheres. Eu pessoalmente sou a favor da abolição de gênero alinhada ao feminismo radical. Quando essa abolição de gênero acontecer, todas as pessoas vão ser livres para serem o que quiserem, sem se nomear como ‘’homem’’, ‘’mulher’’, ‘’demiboy’’, ‘’demigirl’’ e qualquer outro gênero que foi criado a base do individualismo e privilégio.
Só que essa abolição de gênero só poderia ser concluída, quando o patriarcado fosse destruído. E ele ainda não foi.
Mas acontece, que materialmente, o gênero ainda perpetua nossa sociedade só que não de uma maneira ‘’bobinha’’, ‘’ ultrapassada’’, mas sim de uma maneira séria, que subjuga e mata mulheres. As mulheres são colocadas em uma caixinha e qualquer modo de sair dessa linha, vai gerar consequências violentas. 
Em uma recente conversa em um debate nas redes sociais,  uma menina perguntou o seguinte: ‘’ Mas será que o não binário já não seria um começo para a abolição de gêneros?’’
Não.
Primeiro porque esse discurso de não binariedade é perpetuado entre pessoas de adolescentes e pessoas na faxa dos 20, 30 anos ( e mesmo que aja falas de pessoas mais velhas, eu não sei se é pior ainda) , brancos, classe média, que realmente não se importam com a opressão de gênero que acontece em setores não divulgados, e mesmo os divulgados.  O não binário não dialoga com a questão de opressão de gênero das mulheres.
Pior ainda: um homem branco, magro, classe média com 20 anos, se sente fora do binarismo de gênero, e se propõe e se reivindica como não binário, se esquecendo completamente, da classe da qual ele faz parte, se esquecendo completamente da socialização masculina a qual teve, se esquecendo completamente das falas machistas e misóginas que teve durante a vida toda. Mesmo que esse individuo em particular se comprometa em ‘’desconstruir’’ misoginia, justamente porque se aboliu do gênero masculino,  ele ainda faz parte da classe privilegiada, porque a sociedade ainda vai ler ele como um homem. Em cima disso, ele vai ter privilégios em relação a qualquer mulher.
Se reivindicar como não binário, é de uma posição de alto privilégio. As mulheres que se dizem não binárias, eu entendo completamente. Afinal, durante todo o histórico de a modelamento e de  NÃO privilégio, é normal ficar em uma área entre um e outro.
Mas esse meu texto não se designa as mulheres não binárias, e sim faz uma crítica ao aproveitamento que os homens tem disso. 
Continuando, me parece apenas uma perpetuação de ego e de ignorância de materialidade. Essa expansão de gêneros em nada ajuda na situação das mulheres e suas particularidades, essa expansão de gêneros nada dialoga com a segregação que as mulheres passaram e passam justamente por causa desse ‘’ gênero’’. Eu fico pensando sobre como seria a situação de um não binário, dizer que não é nem homem e nem mulher, e como ficaria uma acusação de machismo a ele.
Ele diria: ‘’ Oh não, não sou mais homem!’’
Ou ele diria: ‘’ Sim eu tive uma socialização masculina, e ficou resquícios mas ainda assim quero os meus direitos de não binário’’.
Vejam vocês, homens querem direitos. Pessoas que foram socializadas na masculinidade, que muito provavelmente já exalaram atitudes e palavras misóginas,  que tiveram desde sempre privilégios, querem direitos. Mas ao meu ver é isso que a ‘’diversidade’’ pede: ela pede que todas as pessoas sejam inclusas, mas isso acontece ignorando o materialismo de opressão.
Quando eu vejo essas discussões sobre vários gêneros, sobre não binário, eu sempre vejo as mesmas pessoas: pessoas brancas e privilegiadas, homens principalmente, que também ‘’transitam entre  um gênero e outro’’, e  ainda assim querem ser inclusos em muitos espaços que batem de frente com essas afirmações. Não importa o quanto você se identifica e se sente como não binário, a sociedade vai te colocar e vai te ler da forma que ela te socializou. E enquanto se pede o respeito para uma sociedade capitalista  e patriarcal que nem está em questão de classe econômica e social em forma igualitária, mulheres são mortas justamente porque foram socializadas no gênero feminino. 
Também essa semana vi um vídeo em que entrevistavam uma pessoa não binária, e eles diziam que já estavam ‘’ cansados’’ de explicar o que é o termo e o que é outros termos absurdos como ‘’cisgenero’’. Eles estavam cansados. A maioria desses termos não sai da academia ou de textos em inglês na internet, como todo mundo vai ter acesso a essas preciosas informações?
Aliás, pessoas não binárias mesmo sendo homens, são oprimidos na nossa sociedade, também pessoas ‘’cisgeneras’’, ou seja, pessoas que se ‘’identificaram com o sexo que nasceu’’, então pessoas que são ‘’cis’’ ( se é que isso existe),  tem privilégio em relação a todas essas pessoas. Eu só não sei aonde.
Podem falar o que quiser, rebater da forma que for: mesmo que essa auto identificação se refira apenas a pessoa que está se sentindo fora dos dois gêneros, essa identificação acaba entrando em contato com pessoas que fazem parte do cotidiano e da vida em volta. Se dizer ‘n – b ‘ não é  uma atitude pessoal, porque isso implica várias outras questões, inclusive históricas. 
Eu não dou suporte pra homem que teve uma socialização masculina durante anos, e agora se diz não binário. Não se sentir de acordo com o gênero que foi designado não é nada de novo, porém materialmente, a sociedade patriarcal continua lendo as pessoas por gênero, e dizer ‘’eu não to aqui pra dizer que as pessoas não podem se dizer homem e mulher, mas eu sou não binário’’, é ignorar a classe da qual você faz parte, é ignorar a opressão violenta em cima das mulheres. 
Feministas que apoiam esses discursos, sinceramente não tem um pingo de ética feminista. Inclusive, junto com essas políticas de diversidade, vem a liberalidade para pornografia e prostituição. Porque para o mundo colorido LGBT, tudo é liberado.
De acordo com as questões modernizadas sobre o problema do ‘’Gênero’’ é que ele é binário. Ou seja, o maior problema é que a sociedade coloca um binarismo de gênero e as pessoas tem que ser  colocada em uma dessas duas ‘’caixinhas’’. Qualquer pessoa é oprimida por esse binarismo, inclusive homens, e pune qualquer pessoa que não se conforme com esse binarismo. Pode se ver, que se ignora completamente o histórico de exploração e subordinação que as mulheres tem passado, inclusive se ignora em relação de raça e classe. 
O gênero não é baseado em performance, ele é baseado em quem tem poder econômico e politico, e quem fica abaixo, subordinada. Os estereótipos de gênero que tanto machucam mulheres, são vistos como características de performance pra quem quer transitar entre um gênero e outro.
Em um texto de Debbie Cameron e Joan Scanlon ‘’ Falando sobre Gênero’’, quero destacar uma passagem:
‘’ De forma a mudar o sistema social que cria a diferença de gênero como nós conhecemos, você deve consignar as estruturas subjacentes que produzem e sustentam a diferença de gênero – e você deve buscar erradicar o próprio gênero.’’
Não importa quantos gêneros, ou melhor, comportamentos sejam criados, a sociedade ainda vai continuar lendo homem e mulher porque isso é algo muito além de sentimentos ou individualismo isso faz parte de uma situação de opressão muito, muito antiga.  Uma das críticas a teoria queer além disso tudo, é sobre a erotização e sobre a pornografia. Homens héteros, homens gays, homens assexuais, homens em geral, são estimulados a serem livres de fato, a assistir pornografia (e literalmente foda-se a exploração das mulheres em estupro gravado) porque precisam libertar a sua sexualidade.Eu nem preciso dizer o quanto isso é desonesto.
Meu texto acaba por aqui, mas é só uma parte. Pretendo continuar com minhas constatações. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Semana Da Visibilidade Lésbica: Impressões

Hoje resolvi escrever sobre o dia da visibilidade lésbica, que é no dia 29 de agosto, mas que do dia 21 ao dia 29 se comemora a semana inteira, procurando trazer visibilidade e atenção para a espacialidade do ser lésbica. Infelizmente, o nome ‘’ semana da visibilidade lésbica’’ é quase que como uma ironia: eu não consigo ver em nenhum lugar, sem ser dentre lésbicas, o apoio e a iniciativa para tornar essa semana visível e simbólica e real de luta.
Nesses momentos, a gente percebe o quanto realmente há uma invisibilidade, há a recusa de nos reconhecer enquanto um grupo social subalternizado e oprimido. Há o virar de rosto, há o fechar dos olhos. Não consigo ver outra justificativa para isso. O movimento L’GBT que tanto se orgulha de promover eventos de diversidade, rodas de conversa sobre identidades e sexualidades, que tanto se gaba por promover e apoiar todas as opressões, o movimento L’GBT que tanto faz vídeos na internet para mostrar o quanto são apoiadores de todas as militâncias, fecha mais uma vez os olhos para mulheres lésbicas. No meu facebook, tenho vários contatos como homens gays, bissexuais e héterofeministas, que muitas vezes estão demonstrando todo apoio a ‘’comunidade LGBT’’, que promovem e organizam eventos de visibilidade pra qualquer grupo da sigla, que orgulhosos e felizes trocaram a foto de perfil pro filtro colorido quando os EUA legalizou o casamento homossexual, mas que nessa semana da visibilidade lésbica, não há uma agitação pra eles. Eu sinto como se estivesse colocando a hashtag #SemanaDaVisibilidadeLésbica pra cada postagem, para as paredes.
Numa pesquisa no Google, percebe-se que lésbicas não existem.

Poucas pessoas curtem as postagens, e 2 pessoas, do meu facebook compartilharam algo sobre essa semana. Apenas, duas pessoas, dentre mais de 400 ‘’amigos’’ na rede social. Dentre essas pessoas, muitas mulheres feministas, que como se não bastasse, compartilham pautas dos gays na semana da visibilidade lésbica, chega a ser até irônico, não é? Eu já sabia no pouco tempo de militância lésbica, que as hetero-feministas, têm medo de serem confundidas com sapatão. Numa concepção geral, compartilhar fotos de casamento gay, é algo representativo para todas as pessoas que beijam pessoas do mesmo sexo. A palavra ‘’gay’’ é representativa para todos. Não existe especificidade, não existe vivência particular ou comum de apenas um coletivo de mulheres: a palavra gay resume qualquer especificidade. Então, é claro que é muito mais tranquilo promover e dar suporte, compartilhar dois homens se beijando, ou qualquer notícia com a palavra ‘’gay’’, porque isso é afrontar o conservadorismo. Isso é afrontar a família tradicional brasileira. As feministas, apoiam muito mais homens gays que mulheres lésbicas. Que MULHERES.  Os homens gays militantes do movimento L’GBT que também não compartilharam nada não me surpreendem: mais uma prova que se preocupam com o próprio umbigo e nesses momentos provam toda seu ódio a mulheres. Mas não há porque se preocupar: Homens gays fizeram um vídeo misoginia assistindo ‘porno lesbico’ e não vi nenhuma crítica dentre os gays sobre esses gays. Não vi nada, absolutamente nada. Não me surpreendem que não se importam com lésbicas e só usam essas mulheres como token quando querem as usar pra defender os próprios direitos: ‘’ todos somos bichas gostamos de pessoas do mesmo sexo rs’’.
A homofobia é o nome da repressão que gays sofrem, mas que também é designada e resumida para as lésbicas. Esquecendo que o que sofremos é LESBOFOBIA. E enquanto essas feministas e ativistas queer, ativistas L’’GBT, ficarem nos colocando junto com gays, nada da militância e ativismo de vocês vão me comover, absolutamente nada. Ignorar a semana da visibilidade lésbica é muito além de não ajudar a compartilhar uma postagem no facebook ou twitter: é legitimar a nossa invisibilidade.
A misoginia que mulheres lésbicas sofrem o estupro corretivo, a violência que lésbica butchs sofrem, a sociedade querendo recusar o ser lésbica para mulheres negras e gordas e femme, a lesbofobia, tudo isso é ignorado e colocado na mesma caixinha de ‘’gays’’.
A minha militância lésbica começou a pouco tempo, porque foi a pouco tempo que me entendi como lésbica. O movimento LGBT nunca teria me ajudado, em discursos de ‘’eu nasci assim’’, eu nunca realmente parei de internalizar o que eu sentia, pra me libertar. Foi com o feminismo radical que entendi a palavra ‘’ separatista’’. Foi quando lembrei de tudo que já passei, de lembranças internalizadas que tive que resgata-las com dor sim, pra poder entender quem eu sou e do que desejo.  Agora, dentre essa militância do ser lésbica, identifico o quanto é triste quando nem mesmo as próprias lésbicas se mostram preocupadas com a própria pauta delas. (lembrando que as que não são assumidas, não tem culpa sobre isso)
Na semana da visibilidade lésbica, são poucas amigas e conhecidas lésbicas que estão ajudando a dar suporte par algo que diz respeito a elas tanto quanto diz respeito a outras mulheres lésbicas/negras/gordas/obesas/pobres e periféricas, poucas mulheres lésbicas estão preocupadas com isso, ou demonstrando apoio as sapatãs que estão falando dessa semana: vejo muitas mulheres lésbicas feministas inclusas nos movimentos LGBT, ou no ativismo queer, pensando ser representadas, quando na verdade falam mais de bissexualidade e transexualidade do que lesbianidade. Não faço medição de opressão ou quem sofre mais ou quem sofre menos, mas a lesbianidade não se sujeita a um movimento (que nem existe organizadamente em movimento LGBT ) linear com mulheres iguais: mulheres lésbicas de diferentes classes sociais, PRECISAM da gente. Elas precisam saber que a lesbianidade não é um mito, não é bissexualidade. Precisam saber que amar unicamente mulheres, sair da heterossexualidade compulsória, existe sim. Precisam saber que não tem que se sujeitar a heterossexualidade compulsória para viver, precisam saber que o sexo pode ser lindo, completo e puro. Precisam saber que nossa poesia lésbica é real.
Por outro lado, a resistência lésbica precisa parar de buscar um padrão lésbico, no pensamento racista de ‘’lésbicas, brancas, magras de cabelo curto’’. Precisamos dar suporte e dialogar e trazer mulheres que estão não só as margens do feminismo, mas as margens de se descobrir como lésbicas, e coloca-las no centro da nossa resistência. Lésbicas se perdem nas palavras da diversidade, lésbicas sofrem estupro corretivo, aqueles argumentos de que ‘’lésbicas só pensam em vagina, reduzem as pessoas a isso’’, são argumentos para nos violentar, lésbicas amam mulheres, e se relacionam sexualmente com vaginas, e NUNCA pênis. O problema, é que por esses discursos de diversidade, muitas lésbicas estão se relacionando com homens, a mais de anos, porque não conhecem sobre nossas pautas. E enquanto isso estamos tentando desconstruir o pensamento de que lésbicas gostam de vaginas? Isso nunca. Isso não é questão de desconstrução: precisamos sempre questionar qualquer pensamento repressor, porém, precisamos entender que insistir em pênis em relações lésbicas, é estupro corretivo.
De fato somos lésbicas porque nenhum homem nos comeu de jeito. Esse é o pensamento da sociedade patriarcal e misógina. E eu jamais vou concordar com isso ou ajudar a legitimar isso. Me entristece nessa semana, muito mais que a heterossexualidade patriarcal me ferindo ou não me aceitando: mas sim não ter o apoio de feministas e lésbicas feministas, nessa semana.

Imagem por Aline Dias



Lesbianidade, Resistência ao Negar Pênis aos nossos corpos

Essa semana da visibilidade lésbica acabou ficando na minha memória. Foi a primeira semana, que eu me posicionei enquanto mulher lésbica e gorda. Foi a primeira vez que eu pude demonstrar o orgulho de ser quem eu sou, e de finalmente poder levar ao mundo a palavra lésbica, sem internalizar absolutamente nada. Muito mais que apenas um dia nacional da visibilidade lésbica, foi um dia (mais precisamente uma semana antecedente) que eu pude me mostrar, me mostrar ao mundo. Poderia dizer que muitas pessoas das quais eu conheço, seja amigos ou conhecidos, até mesmo familiares, duvidariam da minha sexualidade, porque claro, eu já me relacionei com homens. O que eles não sabem, é que esse caminho foi duro, foi pesado, foi abusivo. Foi um caminho em compulsividade precoce da heterossexualidade compulsória, foi um caminho de internalizar meus desejos e meus sentimentos. Se hoje posso me posicionar, agradeço a tantas feministas e mulheres maravilhosas que puderam me mostrar isso.
Essa semana, cada mulher lésbica (poucas, infelizmente) encheu as redes sociais com elementos da resistência lésbica, com pautas levantadas, com muito amor e muita demonstração de lesbianidade. Me deparei com muitas mulheres lésbicas se auto organizando, para que essa semana não passasse sem visibilidade. Infelizmente, há sim apagamento. Há o fechar dos olhos. Há a  ignorância. Nem mesmo nessa semana de visibilidade lésbica, a gente pode falar sobre nossas pautas particulares, porque infelizmente, não satisfeitos em deixar que mulheres tem orgulho de falar que não gostam de homens, outros grupos sociais fazem questão de se apropriar da nossa luta. E recebemos críticas, e recebemos xingamentos.
Um assunto bastante delicado foi a questão de que mulheres lésbicas não gostam de pênis em relações, ou seja, não gostam de homens. Um assunto sim, muito delicado, para a atualidade, visto que a identidade de gênero e as sexualidade na base do sentimento e sensações, tem sido bastante explanados e trazidos a tona. A questão, é que mulheres lésbicas que se posicionam com nojo de pênis, são chamadas de transfóbicas. A questão é que mulheres lésbicas que dizem que não querem pênis em suas relações de afeto, são chamadas de transfóbicas e opressoras.
Eu pessoalmente, tento sempre entender os dois lados. Procuro compreender as reivindicações e os espaços de direito da coletividade trans, sejam homens ou mulheres trans, e a busca pela legitimidade e direitos de ocupar os espaços públicos e privados, sem sofrer nenhum tipo de violência física ou verbal. Aliás, enquanto mulher obesa, eu prezo muito para que qualquer grupo social que tenha sua aparência exposta e que infelizmente não se pode disfarçar, porque é o que somos, tenham o respectivo respeito e direito que qualquer outra pessoa tem em relação a acessibilidade e passibilidade. Assim, é o meu pensamento.
Porém, eu não posso me dar ao ‘’luxo’’ de questionar o porque mulheres lésbicas (chamadas ‘’cis’’ ) se posicionem com nojo e recusa ao pênis. Eu não tenho nem motivos para questionar isso. Certamente as mulheres lésbicas não sofrem estupro corretivo de um pau apenas, mas sim de uma pessoa com socialização masculina, porém o pênis, é um elemento central a base do estupro, que homens com socialização masculina, usam. Posso falar por mim mesma, enquanto mulher lésbica e gorda, que já chorei e já tive ânsia de vômito, ao me sentir forçada a fazer sexo oral em um homem. E eu nem sabia o motivo.
Para mim, pênis é gatilho. É algo que me incomoda, que eu não gosto nem de falar. Eu sinto repulsa por pênis, porque infelizmente eu tenho uma adolescência regada a heterossexualidade compulsória. A questão é que mulheres lésbicas sofrem ESTUPRO CORRETIVO. O que seria o estupro corretivo? É questionar/discutir/empurrar pênis para mulheres lésbicas. É dizer: ‘’ Vem cá que eu vou te fazer deixar de ser lésbica’’, é mulheres lésbicas passarem 20 anos com homens se forçando, se deprimindo e muitas se suicidando por causa de baixa auto estima, estupro corretivo e heterossexualidade compulsória, medo de se assumir, medo de sofrer violência (que já sofrem). Não é possível, que mulheres lésbicas se relacionam com quem tem pênis, seja quem for.
Negar isso, discutir isso, questionar isso é um ato de apagamento da lesbianidade e é um ato irresponsável. Nos chamar de ‘’transfóbicas’’ porque infelizmente temos um histórico de violência em relação a pênis, e não queremos nos relacionar com homens, é apagamento, é legitimar esse discurso. Mulheres lésbicas NÃO se relacionam com homens. Não se relacionam, porque os desejos e a afetividade das mulheres lésbicas são voltadas para mulheres.
Isso é independente de alinhamento a vertentes no movimento feminista. Isso é algo muito geral: na teoria para muitas pessoas, a identidade de gênero deve ser visibilizada sem questionamentos, porém quando chega na hora da prática, é preciso olhar para diversas vivências, e não apenas apontar o dedo e berrar ‘transfóbica’ sem entender e conhecer as vivências das mulheres. E nessas mulheres, eu falo de todos os recortes e especificidades de classe e raça. O fato de mulheres lésbicas não quererem se relacionar com mulheres trans que se denominam lésbicas, não é um fator organizado que tem por único intuito prejudicar e violentar (se é que isso é possível) pessoas trans: tem a ver com um fator organizado hétero-patriarcal que sempre nos empurrou para pênis, e que agora que conseguimos nos libertar (isso uma pequena parte de nós) temos que ficar caladas e demonstrar apoio a todas as ‘’opressões’’ esquecendo completamente dos motivos do nosso grupo ser apagado, estuprado corretivamente durante séculos? Isso é uma questão delicada que vai muito, além disso, mas por exemplo, em relação a homens trans ‘’gays’’. Perguntem para quantos homens gays que vocês conhecem, se eles se relacionariam com homens trans ‘’gays’’ sem cirurgia, e me digam o que eles responderam. Perguntem a quantas mulheres heterossexuais se elas se relacionariam com um homem trans?
Os discursos podem ser bonitos e podem em primeiro lugar serem simples, mas não são. Eu poderia muito bem não escrever esse texto e simplesmente dizer que não aceito pinto lésbico. Poderia nem escrever, poderia ser agressiva. Porque seria meu direito enquanto mulher lésbica, nem discutir o que não há pra ser discutido. Mas infelizmente é preciso sim, falar. É preciso explicar. É preciso que a gente pare de ser acusadas por algo que é muito além do pressuposto ‘’transfóbica’’, e sim olhar para as vivências das pessoas.
‘’ Bom mas então vocês não estão olhando pra vivência de ‘mulheres trans lésbicas’, vocês só estão pensando no lado de vocês.’’
E quem vai pensar no meu lado que representa um coletivo inteiro de mulheres sem estatísticas, sem dados, sem pesquisas sem suporte? Quem vai pensar nessas mulheres além da resistência lésbica? Ninguém mais. Não é uma questão de não se relacionar com ‘mulheres trans’ porque são simplesmente transexuais. É uma questão que simplesmente, não dá. E esse não dá é devido ao fator de ser lésbica.
E isso não é reduzir as pessoas ao órgão sexual. Eu não amo mulheres porque elas são bucetas ambulantes. Eu amo mulheres porque eu sou lésbica. Falar que lésbicas reduzem mulher a buceta, é no mínimo nos colocar na mesma classe de homens heterossexuais.
Antes de nos denominar como odiosas, como pessoas que não se importam com os outros, lembrem-se de que é um assunto delicado, que afeta todos os lados, mas muito mais pra quem sofre estupro corretivo a vida toda, pra vir teoria queer e feminismo liberal (e interseccional que coopta com isso) dizer que mulheres lésbicas são isso e aquilo porque não querem pênis em suas relações, porque não gostam de pênis, porque tem repulsa por pênis.
E aqui eu escrevi o meu lado que representa um coletivo inteiro de mulheres, e falei do que eu sinto bem como o que muitas mulheres sentem. É como se já estivessem em nível de culpar a vítima por sentir repulsa do objeto que a estuprou e violentou. Isso não é exagero, isso é fato. Infelizmente não tenho dados nem gráficos para mostrar sobre isso, porque a lesbianidade não tem tanta visibilidade como outras pautas, mas é o que sei a base da minha vivência pessoal e da vivência de outras mulheres lésbicas, que dialoguei. Não há o que ser discutido, mas mesmo assim eu sinto necessidade de me justificar.
E será que não é aí, o erro?


A Palavra Gay e Exclusão de Lésbicas

Sobre a palavra “ gay” novamente:
Bom, acho que a não visibilidade da lesbianidade nos movimentos sociais, principalmente no feminismo e no movimento LGBT é bastante latente. Muitas pessoas me perguntam porque o “gay” não representa uma relação lésbica, mas acho que é porque não dá pra culpar ninguém sobre não refletirem sobre isso: as pautas deliberadas estão longe de chegar perto das pautas de mulheres lésbicas. A palavra gay não pode englobar todos, porque nem todo mundo é gay, principalmente lésbica. Lésbica não é “ as gay”, “ as bixa”, nem de brincadeira. Muitas lésbicas tentam largam a feminilidade, tentam desconstruir alguns padrões sobre “mulheridade”, ao contrário dos gays que podem ser afeminados ou não. As lésbicas não amam homens. Elas gostam sim de pessoas do mesmo sexo, e isso é a única coisa que há de comum com as pautas dos homens gays, e só. Gostar de mulher e recusar homem: eis algo que é completamente diferente da especificidade dos homens gays. Também, para muito além disso, acredito que falta muita representatividade em outros recortes dentro do movimento LGBT, de raça, e de classe, e também dentro da própria resistência lésbica quando reunida e auto organizada.
Mas voltando a pauta principal, pode-se perceber que a maioria das notícias quando relacionadas a sexualidade, são focadas nos homens gays.  Tudo é gay. Casamento gay, beijo gay. Adoção por pais gays. Tudo absolutamente é gay. Onde está a palavra lésbica? E porque a dificuldade em compreender que o gay se refere a homens e não as mulheres? Porque a dificuldade em ver que as pautas das lésbicas são apagadas dentro dos movimentos?
Porque primeiramente, colocar em questão as pautas lésbicas, é ir de contra o masculinismo presente dentro do movimento LGBT ou movimento gay, como preferirem. Porque falar de estupro corretivo, falar maternidade compulsória, de heterossexualidade compulsória, falar de buceta, falar da lesbianidade é algo que vai de contra a cultura do homem, que é focada apenas nos assuntos deles em si. Nunca vejo alguém comentar sobre lésbicas em seus perfis de redes sociais, nunca vejo uma auto organização lésbica, mesmo dentre as lésbicas no movimento LGBT.
E eu não vejo tudo isso porque não há espaços para nós. Porque dentro dos movimentos sociais, abraçamos tantas causas principalmente em relação a sexualidade, mas não abraçamos a nossa PRÓPRIA causa? Porque não falamos dela? Porque não nos organizamos? Será que não conseguimos ver o quanto há apagamento? Será que não conseguimos ver o quanto reproduzimos tantos discursos que nos prejudicam em prol de pautas que nem nos dizem respeito?
A palavra gay quer abranger todos, ignorando que LÉSBICA sempre existiu, e diz respeito as mulheres lésbicas. Se eu for usar gay para tudo, então qual a necessidade da palavra lésbica em suas vivências, existir? Isso não é possível. Eu vejo muitas pessoas se manifestando pelos gays, mas nunca por lésbicas.