Ao começar este texto já
aviso que não abordará só esse fator de não se posicionar só em relação ao
feminismo, mas sim em outros movimentos sociais. O texto falará de questões que
não são usadas na prática como: empatia, atitude, discernimento, posição
política.
Sempre acreditei que
quando vamos demonstrar nossa opinião sobre determinado assunto é preciso que
tenhamos embasamento e que principalmente, ao nos posicionarmos de maneira
teórica sabermos que quando o momento pedir também vamos nos posicionar de
maneira prática. Isso é o que menos tem acontecido. Percebo que no movimento
feminista, há várias divisões – o que é mais que normal, visto que o feminismo
não é um grupo de mulheres com as mesmas vivencias – mas essas divisões começam
pelo seguinte: qualquer mulher que faça parte de um grupo social não –
privilegiado tem mais empatia pelas situações opressoras que outras mulheres
passam, do que uma mulher privilegiada que comenta muito sobre feminismo, mas
não sabe tomar posição quando se depara com situações de violência.
Por exemplo, como mulher
lésbica eu além de entender muito bem o que outra lésbica passa ao estar em
situações de lesbofobia, eu consigo ajuda-la de maneira prática, ao contrário
do que outras mulheres não – lésbicas fazem. A posição de empatia e ajuda as
mulheres deveria ser uma posição prática de todas as feministas, e não momentos
raros. É muito comum nos depararmos com feministas dizendo que apoiam tal tipo
de luta, mas pouco se ve elas tomando atitudes para ajudar na visibilidade
daquele grupo social.
A auto declaração
feminista começa quando compartilhamos muitas postagens no facebook sobre
misoginia e feminismo, começa quando escrevemos muitas coisas sobre feminismo
no twiter, começa quando escrevemos muitos textos acerca do movimento feminista
e a não posição feminista começa quando escolhemos a neutralidade nas situações
de violência misógina e racistas.
O meu amigo, ele pode ser
o mais racista possível, mas eu jamais abrirei mão da minha amizade com ele,
porque o ser humano erra, e está em constante crescimento (ou seria
desconstrução). Essa frase é usada por muitas mulheres dentro do feminismo, mas
são as mulheres que tem privilégio de base e por isso não precisam se preocupar
com isso, até porque a violência não atinge diretamente a elas. Resumem
opressão estrutural com pequenos deslizes, e assim vamos vendo dezenas de feministas
auto declaradas, relevando as pequenas opiniões
de homens misóginos e racistas, porque o ser humano está em constante
crescimento. Enquanto isso, mulheres continuam apanhando e morrendo pelos
mesmos.
Não vamos tão longe:
sabemos que a socialização das mulheres é para serem treinadas a ser delicadas
e amáveis e principalmente mãe de todos. Precisam ser compreensivas e amorosas.
O que me deixa curiosa é até que ponto isso se torna compreensivo se é as custas
de mulheres exploradas, em que essas
mesmas feministas sentam na mesa do bar pra tomar uma cerveja com o abusador e
fetichizador de mulheres.
É difícil, mas muito mais
corriqueiro mulheres que passam por essas violências precisarem cortar relações
com pessoas desse tipo, pois sofrem isso cotidianamente ao ponto de não poder
mais aguentar. Muitas não conseguem cortar relações, pois estão presas a uma
trama em que envolve trabalho, escola ou universidade, e tem medo de serem
humilhadas e debochadas porque tomaram atitudes ‘’ radicais’’, e quando vejo
mulheres que tem medo de olhar além da bolha que foram socializadas desde
pequenas, eu sinto uma mistura de pena e de curiosidade.
A partir do momento que
falamos questões políticas e damos apoio a elas, não adianta falar e depois
subir em cima do muro sem mostrar defesa: nosso papel como feministas é cortar
relação com quem nos violenta ou
violenta outras mulheres, seja com quem for, primeiro por nós mesmas, segundo
pelas outras mulheres. Eu percebo a mesma coisa com várias demandas dos
movimentos sociais, como por exemplo racismo: muitas mulheres feministas
brancas sabem que o fulano é racista pois deixou explicito em opiniões sobre
cotas raciais, sobre apropriação cultural e até mesmo na hora de roubo de
protagonismo negro, mas elas mantém esses homens nos círculos de amizade sejam
virtuais ou pessoais, porque são pequenos deslizes. Para muitas mulheres
feministas brancas, o racismo só é racismo quando é um discurso de ódio direto,
até o momento que naõ tomar proporções muito grandes ( claro no medidor de quem
nunca sofreu na pele racismo) o homem branco pode sempre ‘’desconstruir’’.
Como mulher lésbica percebo
a empatia maior entre eu e meu grupo social não só pensando na lesbianidade,
mas sim em vários outros meios: mulheres lésbicas não dependem de homem pra
nada, e inclusive desenvolvem laços com mulheres muito mais puros, pois a
indiferença perante aos homens é muito real. Por vezes percebo que ainda assim
dentro do meu grupo social, nem todas são assim, mas ao mesmo tempo penso que
não adianta esperar posição firme de quem não tem a mesma realidade que várias
mulheres em situações de opressão pelo recorte de raça e classe. É perceptível que feministas heterossexuais/bissexuais
brancas por não conseguem manter uma relação empática com mulheres sem querer
educar algum homem no meio.
Ademais, falta no
feminismo uma posição política de fato, falta conciliar as falas ( e muitas
vezes poucas, pois muitos discursos são suaves para não chocar ou agredir algum
macho) com as atitudes propostas. Falta cortar relações com homens brancos
fetichistas e lesbofóbicos, falta a coesão na hora de defender uma pauta em
meio virtual, mas pessoalmente rir da piada misógina ou preferir não falar nada
enquanto um homem fetichiza e objetifica mulheres lesbicas e negras. A auto
declaração feminista é fácil, o difícil é ter posição política na hora de precisar
defender e proteger mulheres.



