quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Semana Da Visibilidade Lésbica: Impressões

Hoje resolvi escrever sobre o dia da visibilidade lésbica, que é no dia 29 de agosto, mas que do dia 21 ao dia 29 se comemora a semana inteira, procurando trazer visibilidade e atenção para a espacialidade do ser lésbica. Infelizmente, o nome ‘’ semana da visibilidade lésbica’’ é quase que como uma ironia: eu não consigo ver em nenhum lugar, sem ser dentre lésbicas, o apoio e a iniciativa para tornar essa semana visível e simbólica e real de luta.
Nesses momentos, a gente percebe o quanto realmente há uma invisibilidade, há a recusa de nos reconhecer enquanto um grupo social subalternizado e oprimido. Há o virar de rosto, há o fechar dos olhos. Não consigo ver outra justificativa para isso. O movimento L’GBT que tanto se orgulha de promover eventos de diversidade, rodas de conversa sobre identidades e sexualidades, que tanto se gaba por promover e apoiar todas as opressões, o movimento L’GBT que tanto faz vídeos na internet para mostrar o quanto são apoiadores de todas as militâncias, fecha mais uma vez os olhos para mulheres lésbicas. No meu facebook, tenho vários contatos como homens gays, bissexuais e héterofeministas, que muitas vezes estão demonstrando todo apoio a ‘’comunidade LGBT’’, que promovem e organizam eventos de visibilidade pra qualquer grupo da sigla, que orgulhosos e felizes trocaram a foto de perfil pro filtro colorido quando os EUA legalizou o casamento homossexual, mas que nessa semana da visibilidade lésbica, não há uma agitação pra eles. Eu sinto como se estivesse colocando a hashtag #SemanaDaVisibilidadeLésbica pra cada postagem, para as paredes.
Numa pesquisa no Google, percebe-se que lésbicas não existem.

Poucas pessoas curtem as postagens, e 2 pessoas, do meu facebook compartilharam algo sobre essa semana. Apenas, duas pessoas, dentre mais de 400 ‘’amigos’’ na rede social. Dentre essas pessoas, muitas mulheres feministas, que como se não bastasse, compartilham pautas dos gays na semana da visibilidade lésbica, chega a ser até irônico, não é? Eu já sabia no pouco tempo de militância lésbica, que as hetero-feministas, têm medo de serem confundidas com sapatão. Numa concepção geral, compartilhar fotos de casamento gay, é algo representativo para todas as pessoas que beijam pessoas do mesmo sexo. A palavra ‘’gay’’ é representativa para todos. Não existe especificidade, não existe vivência particular ou comum de apenas um coletivo de mulheres: a palavra gay resume qualquer especificidade. Então, é claro que é muito mais tranquilo promover e dar suporte, compartilhar dois homens se beijando, ou qualquer notícia com a palavra ‘’gay’’, porque isso é afrontar o conservadorismo. Isso é afrontar a família tradicional brasileira. As feministas, apoiam muito mais homens gays que mulheres lésbicas. Que MULHERES.  Os homens gays militantes do movimento L’GBT que também não compartilharam nada não me surpreendem: mais uma prova que se preocupam com o próprio umbigo e nesses momentos provam toda seu ódio a mulheres. Mas não há porque se preocupar: Homens gays fizeram um vídeo misoginia assistindo ‘porno lesbico’ e não vi nenhuma crítica dentre os gays sobre esses gays. Não vi nada, absolutamente nada. Não me surpreendem que não se importam com lésbicas e só usam essas mulheres como token quando querem as usar pra defender os próprios direitos: ‘’ todos somos bichas gostamos de pessoas do mesmo sexo rs’’.
A homofobia é o nome da repressão que gays sofrem, mas que também é designada e resumida para as lésbicas. Esquecendo que o que sofremos é LESBOFOBIA. E enquanto essas feministas e ativistas queer, ativistas L’’GBT, ficarem nos colocando junto com gays, nada da militância e ativismo de vocês vão me comover, absolutamente nada. Ignorar a semana da visibilidade lésbica é muito além de não ajudar a compartilhar uma postagem no facebook ou twitter: é legitimar a nossa invisibilidade.
A misoginia que mulheres lésbicas sofrem o estupro corretivo, a violência que lésbica butchs sofrem, a sociedade querendo recusar o ser lésbica para mulheres negras e gordas e femme, a lesbofobia, tudo isso é ignorado e colocado na mesma caixinha de ‘’gays’’.
A minha militância lésbica começou a pouco tempo, porque foi a pouco tempo que me entendi como lésbica. O movimento LGBT nunca teria me ajudado, em discursos de ‘’eu nasci assim’’, eu nunca realmente parei de internalizar o que eu sentia, pra me libertar. Foi com o feminismo radical que entendi a palavra ‘’ separatista’’. Foi quando lembrei de tudo que já passei, de lembranças internalizadas que tive que resgata-las com dor sim, pra poder entender quem eu sou e do que desejo.  Agora, dentre essa militância do ser lésbica, identifico o quanto é triste quando nem mesmo as próprias lésbicas se mostram preocupadas com a própria pauta delas. (lembrando que as que não são assumidas, não tem culpa sobre isso)
Na semana da visibilidade lésbica, são poucas amigas e conhecidas lésbicas que estão ajudando a dar suporte par algo que diz respeito a elas tanto quanto diz respeito a outras mulheres lésbicas/negras/gordas/obesas/pobres e periféricas, poucas mulheres lésbicas estão preocupadas com isso, ou demonstrando apoio as sapatãs que estão falando dessa semana: vejo muitas mulheres lésbicas feministas inclusas nos movimentos LGBT, ou no ativismo queer, pensando ser representadas, quando na verdade falam mais de bissexualidade e transexualidade do que lesbianidade. Não faço medição de opressão ou quem sofre mais ou quem sofre menos, mas a lesbianidade não se sujeita a um movimento (que nem existe organizadamente em movimento LGBT ) linear com mulheres iguais: mulheres lésbicas de diferentes classes sociais, PRECISAM da gente. Elas precisam saber que a lesbianidade não é um mito, não é bissexualidade. Precisam saber que amar unicamente mulheres, sair da heterossexualidade compulsória, existe sim. Precisam saber que não tem que se sujeitar a heterossexualidade compulsória para viver, precisam saber que o sexo pode ser lindo, completo e puro. Precisam saber que nossa poesia lésbica é real.
Por outro lado, a resistência lésbica precisa parar de buscar um padrão lésbico, no pensamento racista de ‘’lésbicas, brancas, magras de cabelo curto’’. Precisamos dar suporte e dialogar e trazer mulheres que estão não só as margens do feminismo, mas as margens de se descobrir como lésbicas, e coloca-las no centro da nossa resistência. Lésbicas se perdem nas palavras da diversidade, lésbicas sofrem estupro corretivo, aqueles argumentos de que ‘’lésbicas só pensam em vagina, reduzem as pessoas a isso’’, são argumentos para nos violentar, lésbicas amam mulheres, e se relacionam sexualmente com vaginas, e NUNCA pênis. O problema, é que por esses discursos de diversidade, muitas lésbicas estão se relacionando com homens, a mais de anos, porque não conhecem sobre nossas pautas. E enquanto isso estamos tentando desconstruir o pensamento de que lésbicas gostam de vaginas? Isso nunca. Isso não é questão de desconstrução: precisamos sempre questionar qualquer pensamento repressor, porém, precisamos entender que insistir em pênis em relações lésbicas, é estupro corretivo.
De fato somos lésbicas porque nenhum homem nos comeu de jeito. Esse é o pensamento da sociedade patriarcal e misógina. E eu jamais vou concordar com isso ou ajudar a legitimar isso. Me entristece nessa semana, muito mais que a heterossexualidade patriarcal me ferindo ou não me aceitando: mas sim não ter o apoio de feministas e lésbicas feministas, nessa semana.

Imagem por Aline Dias



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