quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Didática Com Homens

Há algum tempo tenho percebido algumas inconstâncias dentro do movimento feminista, e se antes eu achava que era algo passageiro, começo a perceber que na verdade não é inconstância é tendência.
Quando eu conheci o feminismo, foi me colocado nos braços uma bandeja pronta: usar a roupa que quiser, não me dar ao respeito pois ele já é meu, liberdade, beijar quantos homens eu quiser sem ser chamada de vadia, me auto denominar vadia para mostrar o quanto sou ‘’livre’’, liberdade sexual e luta por direitos ‘’ iguais’’. Isso é uma bandeja pronta, porque é praticamente isso que as mulheres conhecem quando entram no feminismo. É como se fosse a superfície, porque o mergulho é realmente difícil. Se até agora nenhuma mulher encontrou dificuldade em olhar para o próprio amigo e descrever toda a misoginia dele, então pode ter certeza, o seu mergulho ainda não foi feito.
Pois então, percebo que há uma didática no feminismo em relação aos homens. Várias vezes eu ouvi e li de mulheres que ‘’ eu prefiro ser didática com os homens, é o meu jeito mesmo’’, inclusive, eu ouvi e vi isso de uma menina que após ensinar sobre feminismo para um homem, ainda chama a atenção de outras mulheres para não julgá-la de forma extremamente pejorativa no modo de dizer e pior de tudo: na frente de homens. Eu realmente acho válido que quando não tivermos nada para fazer, quando um homem que é nosso amigo quer entender melhor sobre como não agir de forma misógina, a gente explique para ele. Porém, passar todo o tempo, a nossa maior parte do tempo conversando com homens sobre feminismo ao invés de mulheres: não dá.
Ainda não paramos pra pensar nas dezenas de mulheres que estão imersas no machismo, que ainda não conhecem o feminismo, que estão sofrendo todos os tipos de abusos físicos e psicológicos, e enquanto isso estamos educando – os homens- ao invés – das mulheres? É certo que não podemos parar toda mulher na rua e perguntar se ela já conhece a palavra do feminismo, mas também é certo que muitas mulheres passam mais tempo conversando com homens sobre questões sociais do que com mulheres, porque via de regra machista: ‘’ eu tenho mais amigos homens que mulheres’’, essa é a frase que prevaleceu em grande parte da nossa vida e da nossa adolescência. Também é a frase mais dita por meninas que sempre tiveram dificuldades de se identificar com a feminilidade ( não que a feminilidade seja identificação, até porque é imposição e submissão, mas estas exceções de mulheres que não gostavam da feminilidade) e que nunca conseguiam gostar das mesmas coisas que as outras meninas gostavam, então sempre vinha aquele tom de ‘’ rebeldia’’ nessas meninas adolescentes em se juntar aos homens. Mas porque isso? Porque os homens sempre tiveram espaço para serem rebeldes e exaltar toda a masculinidade em processo na adolescência. Se juntar aos meninos ao invés das meninas, era um ato de revolta e até de orgulho, porque essas meninas que o faziam ‘’ quebravam o sistema’’ de que meninas tinham que ficar em casa brincando de boneca ao invés de correr e se ralar na rua.
Mas essas meninas não quebravam e nem quebram sistema algum. Porque se juntar a classe que te oprime, não é quebrar o sistema. Enquanto isso, a própria classe de mulheres que fazemos parte ( e acrescentando os recortes de raça e suas particularidades) eram meninas em processo de feminilidade, meninas que já desde cedo aprendiam a fazer comida na panela de plástico. A cuidar da boneca branca e loira, para um dia, ter filhos e filhas dessa mesma maneira, e saber cuidar deles. Quando adolescentes essas meninas já estão tão imersas em uma socialização que não são rebeldes como as meninas que andam com os meninos. E o que acontece? A rebeldia de quem anda com os ‘’meninos revoltados’’, ‘’ com os chefes’’ é colocada contra as meninas que desempenham bem o papel da feminilidade, em outras palavras, as mulheres começam então a ser colocadas umas contra as outras.
Isso pelo jeito persiste até hoje, pois quantas vezes eu já não vi, uma mulher rir da piada do amigo na sala de aula? Ou quando o amigo chama a própria professora de vaca porque deu tal nota para o mesmo, quantas mulheres já não concordaram que ela era uma vaca mesmo? Mesmo as que são feministas. Com quem, me digam, com que mulheres vocês conversam sobre feminismo? Há ações sociais, militâncias em relação às mulheres para conscientizá-las sobre feminismo?
A questão é essa, enquanto estamos falando para o nosso amiguinho se portar como um ‘’bom machista’’, existem mulheres que ainda não conhecem o feminismo, e que estão sendo abusadas psicologicamente achando que é normal, porque ao invés de estarmos procurando chegar até elas, estamos educando os homens. Esses textos na internet sobre como um homem pode entender o feminismo, descontruir, escrito por mulheres, é de um absurdo sem tamanho.
Essa semana eu fui acusada de ser ‘’ violenta com os homens’’ e que o meu feminismo é ‘’ anti – homens’’, sim eu fui acusada por uma mulher. A preocupação da mesma era com os homens, e não com as mulheres. Isso poderia facilmente ser classificado como uma indireta, mas não é por dois motivos: muitas ‘’feministas’’ tem falado isso, tem tentado justificar o feminismo das mulheres que deveriam ser suas companheiras de luta e não homens, para outros homens, e o segundo motivo é que eu jamais vou atacar uma mulher. Mas eu tive que me justificar por que: eu nunca matei um homem, assediei, estuprei. Nunca agredi um homem, porque simplesmente enquanto classe nós mulheres somos as oprimidas e não as opressoras. E quanto vejo mulheres feministas falando sobre ‘’ misandria’’ dizendo que ‘’ não podemos devolver na mesma moeda o que homens fazem’’, eu sinceramente tenho vontade de me retirar do movimento feminista, e eu só não faço, por causa das ‘’outras mulheres’’.
A misandria NÃO EXISTE enquanto materialidade. Não há um ódio organizado e físico contra homens, porque o que na verdade existe é misoginia. A misoginia mata mulheres todos os dias, e não a misandria. No entanto, existem mulheres que odeiam homens. Odeiam homens individualmente e como classe. E isso é um DIREITO dessas mulheres. Sabe por quê? Porque são casos na família de estupro e assédio e violência doméstica, porque são essas próprias mulheres que foram estupradas, porque são mulheres lésbicas sendo  forçadas a se relacionar com homens em uma heterossexualidade compulsória, porque simplesmente é sufocante se dar conta do lugar que ocupamos em uma sociedade patriarcal. Não existe liberdade para nós, enquanto reivindicarmos ‘’ dar para quantos homens quisermos’’, enquanto a nossa liberdade é até aonde o próximo homem me chamar de vadia. Nós não somos vadias, e não há orgulho nenhum em se auto denominar assim, enquanto mulheres que estão na prostituição estão sendo espancadas na cama ou em algum buraco qualquer por homens que as tratam como objetos, via de entrada para o estupro deles. Essas mulheres exercem o modo ‘’ vadia’’ denominado por homens, enquanto nós temos o privilégio de nos auto denominar assim. Não existe liberdade enquanto estivermos educando homens no feminismo, enquanto conversamos mais com homens do que com mulheres.
Porque será que sempre tivemos mais amigos homens? Porque as mulheres foram estimuladas e socializadas a serem inimigas umas das outras. Ontem eu vi um link horrível sobre alguns ‘’ passos’’ sobre educar os homens, e um dos passos era: ‘’ tenha uma amiga mulher’’. Sinceramente, vocês acham que homens não tem amizade com mulheres? Eles sempre tiveram. E não seria mais fácil falar isso para uma mulher ter amizade com mulheres  do que com um homem?
O movimento feminista tem cada vez mais colocado homens para dentro dos espaços, sem se importar com a segurança de outras mulheres. Tem feito textos para educar homens, tem rido das piadas dos homens, tem se juntado com eles para falar mal das colegas, tem trazido os amigos gays para o movimento ( já que, para muitas feministas eles não são machistas), o movimento feminista tem se juntado aos homens contra as mulheres que tem nojo e ódio deles. Em uma preocupação banal e ridícula, medindo o sentimento de quem foi oprimida. Medindo a reação do oprimido.
O movimento feminista não se importa com mulheres gordas/obesas, com mulheres negras periféricas, com mulheres que estão reproduzindo machismo em situações deploráveis. Porque enquanto isso mais uma vez repito – as mulheres se orgulham de quando um amigo ou qualquer homem estranho fale algo sobre feminismo de forma ‘’ consciente’’. Enquanto isso, as mulheres estão puxando assunto com homens sobre feminismo, estão compartilhando notícias sobre mulheres com homens, estão cada vez mais trazendo eles para o movimento.
Eu pessoalmente, explico sobre o machismo estrutural na sociedade para qualquer amigo que queira entender, mas ele vem me procurar, eu JAMAIS vou atrás de homens seja pessoalmente ou no chat, em facebook colando links e compartilhando, para eles. Eu nunca vou direcionar meu feminismo aos homens. E, no entanto, tem sido quase impossível fazer do nosso espaço de mulheres para mulheres. Nós não defendemos as mulheres quando somos atingidas por qualquer tipo de machismo, nós não chamamos atenção dos nossos amigos de modo sério. Quem quiser ser didática com homens, quem sou eu para falar alguma coisa? Mas não comecem a medir a reação a opressão que muitas mulheres tem. Porque vocês falam de uma suposta ‘’ misandria’’, mas vocês não conhecem as vivências das mulheres.
E acrescento: achar que piadas sobre misandria, ou sobre ‘’ destruição aos homens’’ são algo ‘’ pesado’’, ‘’ desnecessário’’, ‘’ transforma o movimento em femismo’’, ‘’ é por isso que os homens estão criticando o feminismo’’, é porque vocês ainda estão com medo de perder o suporte dos homens, aliás, eu não as culpo porque seria uma atitude nada sororária minha ainda por cima, toda nossa socialização foi para isso, mas parem de medir o sentimento de mulheres que estão em situações completamente diferentes das de vocês. Pouco importa o que os homens achem do feminismo, vocês se importam com isso porque vocês não estão dentro do feminismo: vocês ainda estão prestando contas aos homens fora dele, e pior de tudo: prejudicando outras mulheres.
“Eu sinto que ‘ódio aos homens’ é um honorável e viável ato político, que o oprimido tem o direito a ódio de classe contra a classe que o está oprimindo.” Robin Morgan

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