Essa semana da visibilidade lésbica acabou ficando na minha memória. Foi a primeira semana, que eu me posicionei enquanto mulher lésbica e gorda. Foi a primeira vez que eu pude demonstrar o orgulho de ser quem eu sou, e de finalmente poder levar ao mundo a palavra lésbica, sem internalizar absolutamente nada. Muito mais que apenas um dia nacional da visibilidade lésbica, foi um dia (mais precisamente uma semana antecedente) que eu pude me mostrar, me mostrar ao mundo. Poderia dizer que muitas pessoas das quais eu conheço, seja amigos ou conhecidos, até mesmo familiares, duvidariam da minha sexualidade, porque claro, eu já me relacionei com homens. O que eles não sabem, é que esse caminho foi duro, foi pesado, foi abusivo. Foi um caminho em compulsividade precoce da heterossexualidade compulsória, foi um caminho de internalizar meus desejos e meus sentimentos. Se hoje posso me posicionar, agradeço a tantas feministas e mulheres maravilhosas que puderam me mostrar isso.
Essa semana, cada mulher lésbica (poucas, infelizmente) encheu as redes sociais com elementos da resistência lésbica, com pautas levantadas, com muito amor e muita demonstração de lesbianidade. Me deparei com muitas mulheres lésbicas se auto organizando, para que essa semana não passasse sem visibilidade. Infelizmente, há sim apagamento. Há o fechar dos olhos. Há a ignorância. Nem mesmo nessa semana de visibilidade lésbica, a gente pode falar sobre nossas pautas particulares, porque infelizmente, não satisfeitos em deixar que mulheres tem orgulho de falar que não gostam de homens, outros grupos sociais fazem questão de se apropriar da nossa luta. E recebemos críticas, e recebemos xingamentos.
Um assunto bastante delicado foi a questão de que mulheres lésbicas não gostam de pênis em relações, ou seja, não gostam de homens. Um assunto sim, muito delicado, para a atualidade, visto que a identidade de gênero e as sexualidade na base do sentimento e sensações, tem sido bastante explanados e trazidos a tona. A questão, é que mulheres lésbicas que se posicionam com nojo de pênis, são chamadas de transfóbicas. A questão é que mulheres lésbicas que dizem que não querem pênis em suas relações de afeto, são chamadas de transfóbicas e opressoras.
Eu pessoalmente, tento sempre entender os dois lados. Procuro compreender as reivindicações e os espaços de direito da coletividade trans, sejam homens ou mulheres trans, e a busca pela legitimidade e direitos de ocupar os espaços públicos e privados, sem sofrer nenhum tipo de violência física ou verbal. Aliás, enquanto mulher obesa, eu prezo muito para que qualquer grupo social que tenha sua aparência exposta e que infelizmente não se pode disfarçar, porque é o que somos, tenham o respectivo respeito e direito que qualquer outra pessoa tem em relação a acessibilidade e passibilidade. Assim, é o meu pensamento.
Porém, eu não posso me dar ao ‘’luxo’’ de questionar o porque mulheres lésbicas (chamadas ‘’cis’’ ) se posicionem com nojo e recusa ao pênis. Eu não tenho nem motivos para questionar isso. Certamente as mulheres lésbicas não sofrem estupro corretivo de um pau apenas, mas sim de uma pessoa com socialização masculina, porém o pênis, é um elemento central a base do estupro, que homens com socialização masculina, usam. Posso falar por mim mesma, enquanto mulher lésbica e gorda, que já chorei e já tive ânsia de vômito, ao me sentir forçada a fazer sexo oral em um homem. E eu nem sabia o motivo.
Para mim, pênis é gatilho. É algo que me incomoda, que eu não gosto nem de falar. Eu sinto repulsa por pênis, porque infelizmente eu tenho uma adolescência regada a heterossexualidade compulsória. A questão é que mulheres lésbicas sofrem ESTUPRO CORRETIVO. O que seria o estupro corretivo? É questionar/discutir/empurrar pênis para mulheres lésbicas. É dizer: ‘’ Vem cá que eu vou te fazer deixar de ser lésbica’’, é mulheres lésbicas passarem 20 anos com homens se forçando, se deprimindo e muitas se suicidando por causa de baixa auto estima, estupro corretivo e heterossexualidade compulsória, medo de se assumir, medo de sofrer violência (que já sofrem). Não é possível, que mulheres lésbicas se relacionam com quem tem pênis, seja quem for.
Negar isso, discutir isso, questionar isso é um ato de apagamento da lesbianidade e é um ato irresponsável. Nos chamar de ‘’transfóbicas’’ porque infelizmente temos um histórico de violência em relação a pênis, e não queremos nos relacionar com homens, é apagamento, é legitimar esse discurso. Mulheres lésbicas NÃO se relacionam com homens. Não se relacionam, porque os desejos e a afetividade das mulheres lésbicas são voltadas para mulheres.
Isso é independente de alinhamento a vertentes no movimento feminista. Isso é algo muito geral: na teoria para muitas pessoas, a identidade de gênero deve ser visibilizada sem questionamentos, porém quando chega na hora da prática, é preciso olhar para diversas vivências, e não apenas apontar o dedo e berrar ‘transfóbica’ sem entender e conhecer as vivências das mulheres. E nessas mulheres, eu falo de todos os recortes e especificidades de classe e raça. O fato de mulheres lésbicas não quererem se relacionar com mulheres trans que se denominam lésbicas, não é um fator organizado que tem por único intuito prejudicar e violentar (se é que isso é possível) pessoas trans: tem a ver com um fator organizado hétero-patriarcal que sempre nos empurrou para pênis, e que agora que conseguimos nos libertar (isso uma pequena parte de nós) temos que ficar caladas e demonstrar apoio a todas as ‘’opressões’’ esquecendo completamente dos motivos do nosso grupo ser apagado, estuprado corretivamente durante séculos? Isso é uma questão delicada que vai muito, além disso, mas por exemplo, em relação a homens trans ‘’gays’’. Perguntem para quantos homens gays que vocês conhecem, se eles se relacionariam com homens trans ‘’gays’’ sem cirurgia, e me digam o que eles responderam. Perguntem a quantas mulheres heterossexuais se elas se relacionariam com um homem trans?
Os discursos podem ser bonitos e podem em primeiro lugar serem simples, mas não são. Eu poderia muito bem não escrever esse texto e simplesmente dizer que não aceito pinto lésbico. Poderia nem escrever, poderia ser agressiva. Porque seria meu direito enquanto mulher lésbica, nem discutir o que não há pra ser discutido. Mas infelizmente é preciso sim, falar. É preciso explicar. É preciso que a gente pare de ser acusadas por algo que é muito além do pressuposto ‘’transfóbica’’, e sim olhar para as vivências das pessoas.
‘’ Bom mas então vocês não estão olhando pra vivência de ‘mulheres trans lésbicas’, vocês só estão pensando no lado de vocês.’’
E quem vai pensar no meu lado que representa um coletivo inteiro de mulheres sem estatísticas, sem dados, sem pesquisas sem suporte? Quem vai pensar nessas mulheres além da resistência lésbica? Ninguém mais. Não é uma questão de não se relacionar com ‘mulheres trans’ porque são simplesmente transexuais. É uma questão que simplesmente, não dá. E esse não dá é devido ao fator de ser lésbica.
E isso não é reduzir as pessoas ao órgão sexual. Eu não amo mulheres porque elas são bucetas ambulantes. Eu amo mulheres porque eu sou lésbica. Falar que lésbicas reduzem mulher a buceta, é no mínimo nos colocar na mesma classe de homens heterossexuais.
Antes de nos denominar como odiosas, como pessoas que não se importam com os outros, lembrem-se de que é um assunto delicado, que afeta todos os lados, mas muito mais pra quem sofre estupro corretivo a vida toda, pra vir teoria queer e feminismo liberal (e interseccional que coopta com isso) dizer que mulheres lésbicas são isso e aquilo porque não querem pênis em suas relações, porque não gostam de pênis, porque tem repulsa por pênis.
E aqui eu escrevi o meu lado que representa um coletivo inteiro de mulheres, e falei do que eu sinto bem como o que muitas mulheres sentem. É como se já estivessem em nível de culpar a vítima por sentir repulsa do objeto que a estuprou e violentou. Isso não é exagero, isso é fato. Infelizmente não tenho dados nem gráficos para mostrar sobre isso, porque a lesbianidade não tem tanta visibilidade como outras pautas, mas é o que sei a base da minha vivência pessoal e da vivência de outras mulheres lésbicas, que dialoguei. Não há o que ser discutido, mas mesmo assim eu sinto necessidade de me justificar.
E será que não é aí, o erro?

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