Há muito venho pensando em escrever alguma coisa sobre identidade de gênero, teoria queer, gênero ‘’não binário’’, sexualidade e movimento LGBT, em forma de crítica. No entanto, no que concerne a teoria queer eu não posso me estender muito, pois eu nunca consegui ler ela ao todo, mas vou deixar nas referências bibliográficas alguns textos dos quais eu me baseei. Sobre a questão das políticas identidárias ainda não quero me aprofundar sobre isso, estou acumulando mais informações e reflexões embora a minha concepção e a minha opinião já esteja formada, mas isso é assunto futuramente.
Notei que em meu blog fui seguida por algumas pessoas que se identificam com a teoria queer e com a expansão de gêneros, quero deixar bastante escurecido, que eu não compactuo com isso. Embora eu tenha postado uma etnografia que eu fiz esse mês para a disciplina de antropologia em meu curso, isso não quer dizer que eu compartilhe opiniões de concordância. A pesquisa em si deve ser feita sem interferência de opiniões, e a minha decisão de colocar aqui o texto, foi para ajudar na visibilidade da assexualidade, pois sei que é de extrema importância que materiais do tipo sejam divulgados, visto que aqui no Brasil não se tem uma militância física de fato a respeito dessas questões.
Parto da seguinte questão, sobre o ‘’gênero não binário’’.
Curiosamente, essa semana houve uma apresentação etnográfica sobre essa pauta, e ela só ajudou a confirmar o meu posicionamento a respeito disso: de que isso é identificação de pessoas brancas, privilegiadas que leem textos traduzidos sobre a teoria queer, e que querem a todo custo, trazer isso para o Brasil. Para mim, todas as pessoas tem disforia, podem ter disforia, não se adequar ao sexo que nasceu e muito menos se ‘’identificar’’ com o outro sexo, portanto, se ver como uma pessoa neutra. Aliás, qualquer pessoa tem esse direito, porque como foi afirmada por algumas pessoas ‘’não binárias’’ a identificação deles é independente de como a sociedade vai ler eles materialmente, e também é unicamente pelo direito de eles serem como querem ser.
Até aí, concordo. E sei que muita coisa não é questão de escolha, é um sentimento. Mas, afirmar que existe ‘’ageneridade’’ é ignorar anos e anos de opressão a classe das mulheres. O gênero em si, é uma casta, é uma nomenclatura material dada pelo patriarcado para separar aquelas que vão ser exploradas, dos exploradores. O gênero feminino vai ser a subordinada, a objetificada, a fetichizada, a explorada. O gênero masculino vai ser o ‘’superior’’, o que domina as instituições de poder, além de ter a socialização masculina, que cabe lembrar, contém o machismo incluso nele.
Essas duas classes, refletem uma desigualdade e uma subordinação forte durante dezenas de anos. Se a sociedade colocou um ‘’binarismo de gênero’’, não foi para benefício de ambos os ‘’gêneros’’ e sim como um meio de dominar e submeter um gênero específico, e esse gênero é o feminino, o qual a classe de mulheres faz parte. Criadas para servir, criadas para submissão, criadas para não questionar. Criadas para serem vendidas, para serem mutiladas, criadas para serem criadas, criadas pra serem escravizadas, criadas para se odiarem. Criadas a base de misoginia. É isso que engloba o gênero feminino. Até porque como mencionei, o gênero é um mal em absoluto, ele não beneficia ninguém. Mas acaba que quem sai estuprada e violentada, é as mulheres. Eu pessoalmente sou a favor da abolição de gênero alinhada ao feminismo radical. Quando essa abolição de gênero acontecer, todas as pessoas vão ser livres para serem o que quiserem, sem se nomear como ‘’homem’’, ‘’mulher’’, ‘’demiboy’’, ‘’demigirl’’ e qualquer outro gênero que foi criado a base do individualismo e privilégio.
Só que essa abolição de gênero só poderia ser concluída, quando o patriarcado fosse destruído. E ele ainda não foi.
Mas acontece, que materialmente, o gênero ainda perpetua nossa sociedade só que não de uma maneira ‘’bobinha’’, ‘’ ultrapassada’’, mas sim de uma maneira séria, que subjuga e mata mulheres. As mulheres são colocadas em uma caixinha e qualquer modo de sair dessa linha, vai gerar consequências violentas.
Mas acontece, que materialmente, o gênero ainda perpetua nossa sociedade só que não de uma maneira ‘’bobinha’’, ‘’ ultrapassada’’, mas sim de uma maneira séria, que subjuga e mata mulheres. As mulheres são colocadas em uma caixinha e qualquer modo de sair dessa linha, vai gerar consequências violentas.
Em uma recente conversa em um debate nas redes sociais, uma menina perguntou o seguinte: ‘’ Mas será que o não binário já não seria um começo para a abolição de gêneros?’’
Não.
Primeiro porque esse discurso de não binariedade é perpetuado entre pessoas de adolescentes e pessoas na faxa dos 20, 30 anos ( e mesmo que aja falas de pessoas mais velhas, eu não sei se é pior ainda) , brancos, classe média, que realmente não se importam com a opressão de gênero que acontece em setores não divulgados, e mesmo os divulgados. O não binário não dialoga com a questão de opressão de gênero das mulheres.
Pior ainda: um homem branco, magro, classe média com 20 anos, se sente fora do binarismo de gênero, e se propõe e se reivindica como não binário, se esquecendo completamente, da classe da qual ele faz parte, se esquecendo completamente da socialização masculina a qual teve, se esquecendo completamente das falas machistas e misóginas que teve durante a vida toda. Mesmo que esse individuo em particular se comprometa em ‘’desconstruir’’ misoginia, justamente porque se aboliu do gênero masculino, ele ainda faz parte da classe privilegiada, porque a sociedade ainda vai ler ele como um homem. Em cima disso, ele vai ter privilégios em relação a qualquer mulher.
Se reivindicar como não binário, é de uma posição de alto privilégio. As mulheres que se dizem não binárias, eu entendo completamente. Afinal, durante todo o histórico de a modelamento e de NÃO privilégio, é normal ficar em uma área entre um e outro.
Se reivindicar como não binário, é de uma posição de alto privilégio. As mulheres que se dizem não binárias, eu entendo completamente. Afinal, durante todo o histórico de a modelamento e de NÃO privilégio, é normal ficar em uma área entre um e outro.
Mas esse meu texto não se designa as mulheres não binárias, e sim faz uma crítica ao aproveitamento que os homens tem disso.
Continuando, me parece apenas uma perpetuação de ego e de ignorância de materialidade. Essa expansão de gêneros em nada ajuda na situação das mulheres e suas particularidades, essa expansão de gêneros nada dialoga com a segregação que as mulheres passaram e passam justamente por causa desse ‘’ gênero’’. Eu fico pensando sobre como seria a situação de um não binário, dizer que não é nem homem e nem mulher, e como ficaria uma acusação de machismo a ele.
Ele diria: ‘’ Oh não, não sou mais homem!’’
Ou ele diria: ‘’ Sim eu tive uma socialização masculina, e ficou resquícios mas ainda assim quero os meus direitos de não binário’’.
Ou ele diria: ‘’ Sim eu tive uma socialização masculina, e ficou resquícios mas ainda assim quero os meus direitos de não binário’’.
Vejam vocês, homens querem direitos. Pessoas que foram socializadas na masculinidade, que muito provavelmente já exalaram atitudes e palavras misóginas, que tiveram desde sempre privilégios, querem direitos. Mas ao meu ver é isso que a ‘’diversidade’’ pede: ela pede que todas as pessoas sejam inclusas, mas isso acontece ignorando o materialismo de opressão.
Quando eu vejo essas discussões sobre vários gêneros, sobre não binário, eu sempre vejo as mesmas pessoas: pessoas brancas e privilegiadas, homens principalmente, que também ‘’transitam entre um gênero e outro’’, e ainda assim querem ser inclusos em muitos espaços que batem de frente com essas afirmações. Não importa o quanto você se identifica e se sente como não binário, a sociedade vai te colocar e vai te ler da forma que ela te socializou. E enquanto se pede o respeito para uma sociedade capitalista e patriarcal que nem está em questão de classe econômica e social em forma igualitária, mulheres são mortas justamente porque foram socializadas no gênero feminino.
Quando eu vejo essas discussões sobre vários gêneros, sobre não binário, eu sempre vejo as mesmas pessoas: pessoas brancas e privilegiadas, homens principalmente, que também ‘’transitam entre um gênero e outro’’, e ainda assim querem ser inclusos em muitos espaços que batem de frente com essas afirmações. Não importa o quanto você se identifica e se sente como não binário, a sociedade vai te colocar e vai te ler da forma que ela te socializou. E enquanto se pede o respeito para uma sociedade capitalista e patriarcal que nem está em questão de classe econômica e social em forma igualitária, mulheres são mortas justamente porque foram socializadas no gênero feminino.
Também essa semana vi um vídeo em que entrevistavam uma pessoa não binária, e eles diziam que já estavam ‘’ cansados’’ de explicar o que é o termo e o que é outros termos absurdos como ‘’cisgenero’’. Eles estavam cansados. A maioria desses termos não sai da academia ou de textos em inglês na internet, como todo mundo vai ter acesso a essas preciosas informações?
Aliás, pessoas não binárias mesmo sendo homens, são oprimidos na nossa sociedade, também pessoas ‘’cisgeneras’’, ou seja, pessoas que se ‘’identificaram com o sexo que nasceu’’, então pessoas que são ‘’cis’’ ( se é que isso existe), tem privilégio em relação a todas essas pessoas. Eu só não sei aonde.
Aliás, pessoas não binárias mesmo sendo homens, são oprimidos na nossa sociedade, também pessoas ‘’cisgeneras’’, ou seja, pessoas que se ‘’identificaram com o sexo que nasceu’’, então pessoas que são ‘’cis’’ ( se é que isso existe), tem privilégio em relação a todas essas pessoas. Eu só não sei aonde.
Podem falar o que quiser, rebater da forma que for: mesmo que essa auto identificação se refira apenas a pessoa que está se sentindo fora dos dois gêneros, essa identificação acaba entrando em contato com pessoas que fazem parte do cotidiano e da vida em volta. Se dizer ‘n – b ‘ não é uma atitude pessoal, porque isso implica várias outras questões, inclusive históricas.
Eu não dou suporte pra homem que teve uma socialização masculina durante anos, e agora se diz não binário. Não se sentir de acordo com o gênero que foi designado não é nada de novo, porém materialmente, a sociedade patriarcal continua lendo as pessoas por gênero, e dizer ‘’eu não to aqui pra dizer que as pessoas não podem se dizer homem e mulher, mas eu sou não binário’’, é ignorar a classe da qual você faz parte, é ignorar a opressão violenta em cima das mulheres.
Feministas que apoiam esses discursos, sinceramente não tem um pingo de ética feminista. Inclusive, junto com essas políticas de diversidade, vem a liberalidade para pornografia e prostituição. Porque para o mundo colorido LGBT, tudo é liberado.
De acordo com as questões modernizadas sobre o problema do ‘’Gênero’’ é que ele é binário. Ou seja, o maior problema é que a sociedade coloca um binarismo de gênero e as pessoas tem que ser colocada em uma dessas duas ‘’caixinhas’’. Qualquer pessoa é oprimida por esse binarismo, inclusive homens, e pune qualquer pessoa que não se conforme com esse binarismo. Pode se ver, que se ignora completamente o histórico de exploração e subordinação que as mulheres tem passado, inclusive se ignora em relação de raça e classe.
O gênero não é baseado em performance, ele é baseado em quem tem poder econômico e politico, e quem fica abaixo, subordinada. Os estereótipos de gênero que tanto machucam mulheres, são vistos como características de performance pra quem quer transitar entre um gênero e outro.
Em um texto de Debbie Cameron e Joan Scanlon ‘’ Falando sobre Gênero’’, quero destacar uma passagem:
Em um texto de Debbie Cameron e Joan Scanlon ‘’ Falando sobre Gênero’’, quero destacar uma passagem:
‘’ De forma a mudar o sistema social que cria a diferença de gênero como nós conhecemos, você deve consignar as estruturas subjacentes que produzem e sustentam a diferença de gênero – e você deve buscar erradicar o próprio gênero.’’
Não importa quantos gêneros, ou melhor, comportamentos sejam criados, a sociedade ainda vai continuar lendo homem e mulher porque isso é algo muito além de sentimentos ou individualismo isso faz parte de uma situação de opressão muito, muito antiga. Uma das críticas a teoria queer além disso tudo, é sobre a erotização e sobre a pornografia. Homens héteros, homens gays, homens assexuais, homens em geral, são estimulados a serem livres de fato, a assistir pornografia (e literalmente foda-se a exploração das mulheres em estupro gravado) porque precisam libertar a sua sexualidade.Eu nem preciso dizer o quanto isso é desonesto.
Meu texto acaba por aqui, mas é só uma parte. Pretendo continuar com minhas constatações.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Falando sobre gênero. <https://materialfeminista.milharal.org/2012/08/02/traducao-falando-sobre-genero/>
Teoria Queer e a Violência contra a mulher. <https://materialfeminista.milharal.org/2012/08/02/escrito-teoria-queer-e-violencia-contra-a-mulher/>
Problemão de Gênero, Parte I. <http://fabianelima.com/blog/problemao-de-genero-parte-i-os-prefacios/>
Sobre a Política de Identidades Queer. <http://escriturasradicais.blogspot.com.br/2015/06/sobre-politica-de-identidades-queer.html>

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