Escrevo esse texto, no intuito de resgatar uma das coisas mais importantes que aconteceram em 2015: que foi a descoberta do meu eu, do meu verdadeiro eu… Lésbica. Trago em minha cabeça memorias que não são tão antigas, mas mesmo assim preenchem minha mente com imagens desbotadas, até mesmo enfraquecidas. Para me entender lésbica, demorou muito. E eu nem sei se alguma vez chegaria nessa conclusão. A primeira vez que beijei uma mulher, foi a uns 4 anos atrás. Foi uma traição. Sim, de fato foi. Na época eu namorava com um homem, e antes de namorar ele, eu já começava a me apaixonar por essa menina. Mas por questões de heterossexualidade compulsória, eu engajei em um compromisso com ele. Foi quase 2 anos de relacionamento abusivo, e de negar e deixar de refletir o que estava bem em minha frente. A aversão ao órgão sexual masculino, a vontade de vomitar, a indiferença perante ao sexo, a baixa auto estima, a auto destruição. Tudo era uma soma e era muito explicito que eu estava naquele relacionamento por dependência emocional. Após o termino desse namoro, eu fiz o que sempre quis fazer: dediquei meus beijos e carinhos só pra mulheres.
Segui me denominando bissexual, mesmo depois de muito tempo sem me relacionar com homens. Eu fazia isso para ter uma melhor aceitação não só minha mas da família. Eu não quero com isso dizer que minha lesbianidade se construiu após a ruptura de um macho, mas sim de buscar evidenciar o quanto fui compulsiva em relação a homens, desde meus 11 anos. Nunca se abriu a possibilidade de gostar de mulheres pra mim, porque eu estava ocupada sendo sexualizada. Esse ano, esse ano finalmente me libertei de me denominar bissexual pra finalmente entender quem eu sou. Eu compreendi rápido, porque não era algo novo para mim, mas eu procurei conversar com outras amigas lésbicas, e principalmente repassar todo meu passado. Lembrar de todas as vezes que me forcei a fazer coisas que não queria fazer, sobre o consentimento falso, sobre meus falsos sentimentos, sobre todas as vivencias complicadas que tive.
Quando me construo observando como me relaciono, mais eu vou percebendo todas as barreiras propostas. O quanto o meu eu é a todo momento questionado. O quanto a minha insegurança se destaca, porque a todo momento, a sociedade patriarcal e heterocentrada me diz que não sou boa o suficiente. Que a mulher que amo vai me deixar. Que o homem sempre sabe fazer melhor. Que falta alguma coisa. Falta alguma coisa no meu amor, e no meu carinho. No sexo, falta um pênis. Nas ruas, eu não posso demonstrar meu sentimento. A todo o momento sou bombardeada de forma velada e explicita. A não pergunta me causa desconforto e tristeza. Ninguém pergunta sobre minha namorada. Ninguém pergunta sobre meu namoro. Todos fingem que eu só tenho uma amiga muito próxima. Pouco importa nossos momentos de reciprocidade e sentimento, que vão além de uma amizade. Todo mundo pergunta sobre o namoro hetero de qualquer mulher da minha família. Vamos todos fingir que ela não é lésbica. Nem vamos tocar nesse nome. A não importância me causa dores, dores emocionais.
Sabendo a todo o momento que não sou eu que faço comparações com homens, mas sim a sociedade que tem aversão e não acredita no amor entre duas mulheres, que faz esse parâmetro, a todo momento sou colocada a prova. Por mim mesma, por consequência do que a sociedade me sufoca. Ninguém respeita nossos relacionamentos. Ou somos convidadas para fazer parte de uma transa em grupo, um ménage talvez, ou somos condicionadas a assistir o quanto as pessoas não identificam nosso relacionamento como um relacionamento real, principalmente se for monogâmico. Não somos reais, nosso namoro é uma brincadeira. Amanhã passa. Fase. Coisa de momento. Estamos livres e disponíveis pra receber cantada, trocar conversas flertivas, porque afinal, ela não está namorando né? Quem somos nós? Seres inexistentes?
E porque você cortou o cabelo assim?
E até onde você vai com isso?
Seja discreta.
Não se exiba. Peço isso porque me preocupo.
Mentira.
Verdades?
Abominação, doença?
Todos querem que ninguém saiba. O nosso amor a gente esconde. Faz um toque suave na mão, mas sem dar muita bandeira. Porque essas coisas se fazem entre quatro paredes, não? Ou só pra eles assistirem? Não sei.
Butch? Porque você está se vestindo como homem? Quer ser homem? E porque você namora uma mulher que quer ser homem?
Porque você sente tanta insegurança? Não confia em si mesma? Não confia na sua companheira? Eu confio. Confio mais que tudo. Mas quando estamos longe, e quando ela está em uma festa, tudo que eu consigo pensar, é o quanto os homens estarão ali, sem respeitar, sem respeita-la individualmente, e sem respeitar um relacionamento. Quando olho os homens gerando conversas, querendo respostas, ou se metendo no abraço de duas namoradas como já testemunhei, eu não sei o que pensar, além da nossa vulnerabilidade.
Nosso sentimento é único para mulheres, e temos receios. A todo o momento somos questionadas e colocadas em uma competição, ou então comparadas. Se ambas somos lésbicas, encaramos o fetiche e a misoginia dos homens querendo a todo momento quebrar nossa relação de forma psicológica e física, além de sermos sempre fetichizadas. Se namorarmos uma mulher bissexual, precisamos de base e segurança, porque o fato da nossa companheira também gostar de homens, nos apavora, de uma maneira que não nos colocamos como inferiores, mas sim de que o nosso maior inimigo tenta se infiltrar de diversas maneiras diferentes, e todas as nossas vivencias vem a tona.
Nossas explicações, de que amamos, de que confiamos. Mas não podemos confiar em qualquer palavra amiga, porque sabemos que amanha ou depois, quem vai segurar a nossa barra somos nós mesmas. A nossa dor é a gente quem vai cuidar. De todas as maneiras procuro a tranquilidade, e sei que encontro no amor que sinto pelas mulheres. A nossa forma de ver o mundo, pra quem focamos esses sentimentos… Esse ano me deparei com tudo isso e ainda mais, e sei que tenho uma passibilidade muito grande perto do que as sapatonas de anos já passaram, ou da situação familiar que algumas se encontram. Porém, eu hoje queria agradecer a todas vocês por resistirem. E a frase que me fez presente for:
‘’ E SE EU FOR LÉSBICA?’’
E eu digo
Eu sou.
Eu, nós.
Lésbicas.
Cena da série Orange Is The New Black, personagem Big Boo.
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