Sobre a palavra “ gay” novamente:
Bom, acho que a não visibilidade da lesbianidade nos movimentos sociais, principalmente no feminismo e no movimento LGBT é bastante latente. Muitas pessoas me perguntam porque o “gay” não representa uma relação lésbica, mas acho que é porque não dá pra culpar ninguém sobre não refletirem sobre isso: as pautas deliberadas estão longe de chegar perto das pautas de mulheres lésbicas. A palavra gay não pode englobar todos, porque nem todo mundo é gay, principalmente lésbica. Lésbica não é “ as gay”, “ as bixa”, nem de brincadeira. Muitas lésbicas tentam largam a feminilidade, tentam desconstruir alguns padrões sobre “mulheridade”, ao contrário dos gays que podem ser afeminados ou não. As lésbicas não amam homens. Elas gostam sim de pessoas do mesmo sexo, e isso é a única coisa que há de comum com as pautas dos homens gays, e só. Gostar de mulher e recusar homem: eis algo que é completamente diferente da especificidade dos homens gays. Também, para muito além disso, acredito que falta muita representatividade em outros recortes dentro do movimento LGBT, de raça, e de classe, e também dentro da própria resistência lésbica quando reunida e auto organizada.
Mas voltando a pauta principal, pode-se perceber que a maioria das notícias quando relacionadas a sexualidade, são focadas nos homens gays. Tudo é gay. Casamento gay, beijo gay. Adoção por pais gays. Tudo absolutamente é gay. Onde está a palavra lésbica? E porque a dificuldade em compreender que o gay se refere a homens e não as mulheres? Porque a dificuldade em ver que as pautas das lésbicas são apagadas dentro dos movimentos?
Porque primeiramente, colocar em questão as pautas lésbicas, é ir de contra o masculinismo presente dentro do movimento LGBT ou movimento gay, como preferirem. Porque falar de estupro corretivo, falar maternidade compulsória, de heterossexualidade compulsória, falar de buceta, falar da lesbianidade é algo que vai de contra a cultura do homem, que é focada apenas nos assuntos deles em si. Nunca vejo alguém comentar sobre lésbicas em seus perfis de redes sociais, nunca vejo uma auto organização lésbica, mesmo dentre as lésbicas no movimento LGBT.
E eu não vejo tudo isso porque não há espaços para nós. Porque dentro dos movimentos sociais, abraçamos tantas causas principalmente em relação a sexualidade, mas não abraçamos a nossa PRÓPRIA causa? Porque não falamos dela? Porque não nos organizamos? Será que não conseguimos ver o quanto há apagamento? Será que não conseguimos ver o quanto reproduzimos tantos discursos que nos prejudicam em prol de pautas que nem nos dizem respeito?
A palavra gay quer abranger todos, ignorando que LÉSBICA sempre existiu, e diz respeito as mulheres lésbicas. Se eu for usar gay para tudo, então qual a necessidade da palavra lésbica em suas vivências, existir? Isso não é possível. Eu vejo muitas pessoas se manifestando pelos gays, mas nunca por lésbicas.
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