Percebo que as pessoas não sabem mais a diferença entre sexualidade e gênero, o que chega a ser um tanto curioso, porque o gênero é amplamente defendido como algo revolucionário e que pode ser performado de várias formas, e a sexualidade é defendida do mesmo modo, só que não é assim que na prática ocorre.
Vamos lá:
O que é sexualidade? Eu não vou entrar em conceitos teóricos e nem trazer frases de autoras para definição dessa palavra, mas vou usar do meu entendimento do que é sexualidade, que é o mesmo entendimento que vocês: sexualidade é com quem e como nos relacionamos, seja fisicamente e emocionalmente. A sexualidade define com quem nos relacionamentos, com quem temos atração sexual e emocional. Por exemplo: Mulheres Lésbicas se atraem por mulheres. Bissexuais se atraem e se relacionam com mulheres ou homens. Heterossexuais se relacionam com pessoas do sexo oposto. Sim, a sexualidade é ligada ao sexo. É ligada a nossa biologia, sinto informar pra vocês. Por mais que se queira transformar a sexualidade em algo parecido com o gênero, ou seja, um sentimento, isso não vai ser possível, porque sexualidade é e sempre foi com quem nos relacionamos.
Uma mulher heterossexual não pode se sentir lésbica, não pode desconstruir o fato dela ser hetero. Isso não vai acontecer, porque essa é a orientação sexual dela. Se ela se relacionar com mulheres sexualmente, aquilo não vai significar e nem gerar prazer pra ela, porque a orientação sexual dela é heterossexual, ou seja, ela só se relaciona com o sexo oposto, ou seja, homens. Não há como desconstruir esse tipo de pensamento, se uma mulher heterossexual começa a beijar mulheres vez ou outra em festas por exemplo, para provar que é uma pessoa desconstruída, das duas uma:
- Ou ela vai ferir os sentimentos de uma mulher lésbica ou bissexual, em algum momento;
- Ou ela vai se ferir, querer provar algo que ela não é.
A sexualidade é intrinsecamente ligada ao sexual. Aos órgãos genitais, pra ser mais precisa. Não interpretem isso como se eu estivesse dizendo que todos nós somos seres alucinados por sexo, e que somos pênis ou vaginas ambulantes, claro que não. O emocional, o sentimento mais aprofundado, acontece quando conhecemos alguém mais intensamente e cotidianamente e isso é muito óbvio. O que estou colocando, é que nenhuma mulher heterossexual vai se apaixonar por uma mulher, e mesmo que aja um sentimento entre ambas, uma delas não vai conseguir levar aquele relacionamento adiante. Quando mulheres bissexuais e heterossexuais brincam que: ‘’ Só me decepciono com homens, vou virar lésbica’’, isso é altamente lesbofóbico, é não levar em consideração a vivência de mulheres lésbicas, ninguém pode migrar de sexualidade, as pessoas no máximo podem passar anos se enganando por opressão e heterossexualidade compulsória e depois se entenderem sua verdadeira sexualidade, mas ninguém muda de sexualidade por concepção momentânea. Reflitam vocês mesmas, se vocês mudariam a sexualidade de vocês e se pedissem pra vocês desconstruírem o desejo e sexualidade de vocês, o que vocês fariam? Fingiriam ser algo que não são? Ignorariam o que vocês querem? Machucariam outras pessoas em prol de uma desconstrução sem sentido? Os homens gays que vocês conhecem se relacionariam sexual e emocionalmente romanticamente com homens transexuais com vagina? Vocês, lésbicas que se alinham a um pensamento queer, se relacionariam sexualmente com mulheres transexuais com pênis?
Todos nós sabemos as respostas. Intimamente e exteriormente. E quando falamos não para todas essas respostas, não estamos invalidando a identidade de gênero de qualquer pessoa independente da concepção de gênero que cada um tem: afirmar que uma mulher lésbica se relaciona única e só com mulheres que tem vagina, não deveria ser transfobico, porque não é algo mutável nem tem a ver com algum problema relacionado a identidade de gênero de alguém. Tem a ver com quem somos.
Falando diretamente sobre mulheres lésbicas, toda a lesbofobia que passamos é porque exatamente negamos pênis aos nossos corpos. Porque para a nossa sociedade, a cura pra qualquer mal é pênis. Porque para se casar, ter filhos, ter um casa, família, tem que ter um homem incluso nisso. O verdadeiro sexo é o sexo que há pênis. O sexo entre mulheres não existe para as concepções lesbofobicas. E por mais que vocês afirmem: ‘’Mas nem todo homem teu pau, e nem toda mulher tem buceta’’, é exatamente ao contrário que a sociedade faz a leitura, e a sociedade persiste em fazer uma leitura de estupro corretivo. Questionar porque lésbicas não se relacionam com pessoas com pênis, é estupro corretivo, porque nossa sexualidade é resistência. Resistir a uma sociedade que nos empurra isso todos os dias da nossa vida. Se vocês levarem em consideração nossas vivências, vão saber que muitas mulheres lésbicas passam anos casadas com homens tentando reprimir que são lésbicas por baixo auto estima e não aceitação da família. Vocês iriam entender que muitas mulheres lésbicas quando adolescentes foram e são empurradas para homens para ver se curam a lesbiandade. Vocês iriam saber que todos os dias uma mulher lésbica é estuprada pra aprender a gostar de homem. Vocês iriam saber que há lésbicas anônimas, lésbicas que vocês nunca ouviram falar, mas que são espancadas pela polícia porque estavam beijando uma mulher numa esquina. Vocês iriam saber que o estupro corretivo é real, quando enfiam pênis na boca de mulheres lésbicas bêbadas. Vocês iriam saber que o corretivo quer dizer que querem nos corrigir, nos curar. E pra nos curar, é preciso que enfiem pênis nos nossos corpos. Pra nos curar é preciso fazer pornografia em que homens estão no meio da transa de duas mulheres, pra nos curar o nome lésbica passa a ser inexistente nos movimentos sociais. Pra nos curar mulheres lésbicas estão sendo expulsas de casa. Pra nos curar, lésbicas butchs estão sendo chamadas de homens e de ‘’masculinizadas’’ e acusadas de querer ser homens, porque a sociedade não nos vê simplesmente como lésbicas que amam outras mulheres.
As definições de gênero de vocês, isso eu não posso fazer nada. Mas peço, com coerência, não peçam para lésbicas desconstruírem aversão a pênis. O nosso nojo a esse órgão sexual é justificado, porque o patriarcado, misoginia e a lesbofobia, são empurrados pra gente a vida toda em forma de pênis. Por mais que vocês queiram ver gênero como sentimento, sexualidade não é, e nem nunca foi assim, e as violências que as lésbicas sofrem estão ligadas a questão do órgão sexual de homens. Se trata de quem vocês se relacionam. Sempre foi assim, e antes de vocês pensarem em desconstrução de algo tão absurdo que é a sexualidade e o modo que as pessoas se relacionam em relação a isso umas com as outras, pensem se vocês vão praticar o que tanto teorizam, porque a prática, a prática é muito diferente. Na prática quem morre e é espancada é quem se relaciona com alguém do mesmo sexo. Não o contrário.
Essa semana houve acusações de transfobia sobre essa imagem:
Parece que as lésbicas não podem mais se libertar. E que qualquer menção que gostamos de buceta é algo ofensivo. A brincadeira acima nem poderia acontecer na vida real, porque se uma mulher lésbica que não se assumiu fazer isso em família, as vezes é expulsa ou espancada porque diz que gosta de mulheres, consequentemente bocetas. É esperado nos ambientes familiares que se faça piadas sobre pênis, sobre homens, e quem nem se toque no nome ‘’buceta’’. Tanto que na nossa linguagem popular, falar buceta é mais pesado e um grande palavrão, ao que falar ‘’caralho’’ é mais tranquilo. Imagina então se uma mulher se levanta e disser que gosta de mulheres?
Em nenhum momento o tweet acima diz que mulheres transexuais não são mulheres. Mas o tweet afirma sim, que mulher lésbica gosta de buceta, e isso é a definição do ser lésbica. E gostar de boceta sendo uma mulher, é algo transcendente, é uma heresia. E mulheres lésbicas sempre gostaram de mulheres com boceta. Não há nada que vocês possam fazer sobre isso, e isso não é se colocar intencionalmente contra qualquer pessoa que queira se identificar fora do sexo que nasceu, na verdade isso nada tem a ver com gênero, como mencionei no começo do texto: isso tem a ver com sexualidade.
Que possamos olhar para além do nosso mundo e das nossas vivências, mas dando aquela espiada: será que a gente faria o que tanto pregamos?
Deixo vocês com um trecho da Adrienne Rich:
‘’ Antes que qualquer tipo de movimento feminista existisse ou pudesse existir, as lésbicas existiam: mulheres que amavam mulheres, que se recusavam a acatar o comportamento imposto as mulheres, que se recusavam a serem definidas em função dos homens. Aquelas mulheres, nossas antepassadas, milhões cujos nomes nós não sabemos, foram torturadas e queimadas como bruxas, difamadas em tratados religiosos e posteriormente científicos, retratadas na arte e literatura como mulheres bizarras, amorais, destrutivas e decadentes. Por um longo tempo as lésbicas foram a personificação do mal feminino. Lésbicas têm sido forçadas a viver entre duas culturas, ambas dominadas por homens, cada uma delas negando e ameaçando nossa existência. A cultura patriarcal heterossexual levou as lésbicas a culpa e as sombras, frequentemente ao ódio a si mesmas e ao suicídio’’.




